O Inferno de Dante

Thais Marinho | Pra Ler

Nada como um bom inferno pra fazer sucesso nos dias de hoje. Não estou falando de um inferninho qualquer. Não adianta ter só umas labaredas de chamas e um ou outro capetinha com tridentes. Não, senhor. Inferno bom mesmo tem que ter uma variedade danada (ãh, ãh, pegou o trocadilho?!) de castigos, vários tipos de demônios e uma ou duas bestas. Ah, e não pode faltar uma boa logística de infra-estrutura para receber os pecadores. Temos que admitir que poucos infernos atendem a esses critérios tão bem quanto o que Dante Alighieri criou. Nosso criativo autor nasceu no século treze, em Florença. Foi poeta, escritor e político e uma de suas grandes obras foi A Divina Comédia – o livro que deu origem ao tão famoso Inferno de Dante.

Já tem uns bons séculos aí desde que Dante pôs a cachola pra funcionar e criou a morada do Satanás. Mas ultrapassada ela não está de jeito nenhum. Tanto é que o Inferno de Dante vai virar jogo da Eletronic Arts (EA). Dante’s Inferno chega às lojas dos Estados Unidos no início de 2010. Antes disso, vai parar nas páginas das histórias em quadrinho. Em parceria com a EA, a DC Comics vai lançar em dezembro desse ano uma série de seis partes (texto de Christos Gage e ilustrações de Diego Latorre). No jogo, Dante vai atrás de Beatriz, seu amor platônico que morreu ainda jovem.

Mas e se você fosse se aventurar pelos nove círculos do inferno dantesco, o que encontraria? Mais embaixo segue um guia de viagem para você se divertir com o que Dante topou pelo caminho. Mas antes, deixa eu te situar na história:

Alighieri é ao mesmo tempo autor e personagem. Tudo começa com Dante na floresta da perdição. Há um caminho de saída fácil, mas ele não consegue seguir. Três feras o impedem. Chega, então, Virgílio – um poeta da antiguidade que é um dos preferidos de Dante – para dar uma mãozinha. Ele guia o personagem pelo caminho mais difícil: inferno, purgatório e paraíso. Cada uma dessas “fases” é um livro.

Nesse passeiozinho pelo inferno, Dante cruza com inúmeras figuras mitológicas (a obra mistura mitologia grega e crenças católicas) e com pessoas conhecidas na época. Aí está uma coisa interessante. Ele tromba com políticos, amigos, personalidades. E tudo isso no inferno. Entendeu que tenso?  E ele fala de qual pecado os conhecidos dele foram acusados, bate papo sobre política e tudo o mais. Quando chega ao círculo dos traidores, então… vixi, o tanto de conhecido político que ele encontra não tá no gibi.

Bom, agora que estamos devidamente informados… que venham os nove círculos!

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A saga e o Inferno de Dante

Ao entrar pela porta do inferno, Dante e Virgílio encontram o vestíbulo dos ignavos. Aqueles que não foram nem fieis nem rebeldes a Deus. Eles foram omissos em vida.  Esses são aqueles que Deus despreza e nem o inferno aceita. O castigo? Nus, são picados eternamente por moscas e vespas. Separando o vestíbulo dos círculos do inferno está o rio Aqueronte, um dos rios do inferno de Hades. Lá, o barqueiro Caronte transporta as almas ao outro lado.

Em todos os círculos, as almas vivem o castigo de acordo com o que fizeram em vida. Elas são obrigadas a cumprir uma ação contrária. Os primeiros círculos são para aqueles que cometeram pecados mais leves. Os castigos também são, digamos, mais brandos. Quanto mais se desce, quanto mais perto do coisa-ruim se chega, mais o bicho pega.

O primeiro círculo é o Limbo. Ali ficam aqueles que não tiveram a oportunidade de serem batizados. Vírgilio é um deles. Nasceram e morreram antes que a cristandade surgisse. As almas do primeiro círculo não têm castigo nenhum. Mas nunca poderão conhecer Deus.

Depois do Limbo, está Minos, rei da ilha de Creta quando vivo. Reza a mitologia grega que depois de morto, ele desceu ao inferno e virou juiz de almas. Ele dita o círculo pra onde a alma vai. No segundo círculo estão os luxuriosos. Eles têm como castigo ser arrebatados continuamente por um turbilhão, como em uma nuvem, já que em vida, deixaram-se levar pelos prazeres do corpo.

Lá pelo terceiro círculo ficam os gulosos. Também fica Cérbero, aquele cão de três cabeças que na mitologia grega guarda os portões do inferno. Hércules teve que enfrentá-lo no seu décimo segundo trabalho.  Pra quem não é muito chegado em Hercules, Cérbero também deu as caras (as três) no primeiro filme do Harry Potter. Os avarentos ficam no quarto círculo. Quem está de guarda ali na entrada é Pluto, deus das riquezas. Pelas bandas do quarto círculo, o castigo é empurrar grandes pesos, eternamente, enquanto vão se insultando pelo caminho.

No quinto círculo, estão aqueles que cometeram o pecado da ira. As almas ficam mergulhadas nas águas barrentas do rio Estige, que era um dos rios de Hades. Nele Aquiles foi mergulhado pela mãe quando bebê. Só o calcanhar ficou de fora das águas. O resto da história nós já sabemos.

Separando o círculo dos raivosos do sexto circulo. Está o Muro de Dite. A única passagem é uma porta que está fechada. Como se fosse pouco ter demônios impedindo a passagem, os dois viajantes ainda topam com Medusa e com as três fúrias – criaturas nada adoráveis que viviam no inferno dos gregos torturando as almas pecadoras. Um anjo vem abrir a porta para Virgílio e Dante. Ao conseguir passar, os viajantes chegam à morada dos hereges, o sexto círculo. Lá os pecadores são sepultados em túmulos flamejantes.

As ilustrações da Divina Comédia feitas Gustave Doré estão entre as mais conhecidas. Aqui, os suicidas.

As ilustrações da Divina Comédia feitas Gustave Doré estão entre as mais conhecidas. Aqui, os suicidas.

O sétimo círculo é a morada dos violentos. Quem guarda sua entrada é o minotauro. O espaço é divido em três sub-círculos. No primeiro, ficam aqueles que cometeram violência contra o próximo. Essas almas ficam mergulhadas em sangue fervente no rio Flegetonte, outro dos rios de Hades. Centauros ficam na margem, vigiando e flechando aqueles que tentam fugir.

No segundo sub-círculo, estão as almas que em vida cometeram violência contra si mesmo (os suicidas) ou contra seus próprios bens. Já que mostraram desprezo pelo próprio corpo, no inferno os suicidas perderam a posse do corpo de vez. Viraram árvores. Você pode pensar: ah, que tranqüilo. Ficar lá paradão o resto da eternidade. Até seria tranqüilo se fosse as hárpias. Já ouviu falar delas? Também da mitologia grega, elas são seres meio mulheres meio pássaros. No Inferno concebido por Dante, elas ficam lá, arrancando pedacinhos do corpo dos pecadores. Já quem não deu valor a seus bens materiais, é perseguido por cães ad infinitum.

Os que são acusados de violência contra Deus, estão no terceiro sub-círculo. Um lugar desolado, areia quente e fogo que cai como se fosse neve. Ali também ficam os que foram contra a natureza – para Dante, os sodomitas – e os que cometeram violência contra a arte.

Separando o sétimo círculo do oitavo, há um abismo. Por ali também fica Gerião, um gigante que, até a altura do quadril, tem três corpos. Ele foi morto por Hércules no seu décimo trabalho.

O oitavo anel é divido em dez sub-círculos, que têm em comum abrigar as almas condenadas por algum tipo de malícia ou fraude. Primeiro vêm os sedutores de mulheres, depois os bajuladores. Mais embaixo os que cometeram simonia, ou seja, venderam favores divinos, peças sagradas, cargos eclesiásticos, bênçãos, etc. No quarto sub-círculo os que se passaram por magos e adivinhos. Depois os trapaceiros que negociaram cargos públicos ou roubaram seus amos. Então, os hipócritas, ladrões, maus conselheiros, os disseminadores de discórdia e, no último sub-círculo, os falsários.

Os castigos de cada laia? Acompanhe comigo: os sedutores são açoitados pelas mãos de demônios. O destino dos aduladores é o esterco. Os simoníacos são atolados em buracos e os pés, que ficam pra fora, são queimados por chamas. Aqueles que se meteram a adivinhos tem o rosto virado pra trás. No quinto compartimento, os trapaceiros são mergulhados regularmente no piche fervendo (vale ressaltar que são demônios que fincam as almas e as mergulham no poço). O castigo dos hipócritas é vestir pesadas capas de chumbo dourado. Os ladrões são picados por serpentes, morrem e renascem para ser picados de novo. Os maus conselheiros ficam envoltos em chamas, no oitavo compartimento. Os disseminadores de discórdia – que não é tanto discórdia, é mais confusão – têm demônios armados com espadas no seu encalço. Por último, os falsários são punidos com úlceras e feridas ardentes. Ufa! Haja criatividade pra tanto castigo.

Doré nasceu em 1832, na França. Essa ilustração retrata o círculo dos traidores.

Doré nasceu em 1832, na França. Essa ilustração retrata o círculo dos traidores.

O que separa o nono círculo dos demais é o poço de gigantes rebeldes. Dante diz que eles são horrendos. Eu tendo a acreditar. Horrendos ou não, um deles foi até gentil. A pedido de Virgílio, coloca os dois poetas do outro lado do poço.

Ah, agora estamos em meio à gente muito boa. A nata do inferno. Os que têm o prazer de estar mais próximo do capetão-mor. Os traidores. Para essa galera especial, um castigo também diferente. O que mais se vê no inferno? Fogo, não é? Por aqui, o que aflige pecadores é gelo. Eles estão mergulhados em gelo até os olhos.

O nono círculo é também dividido. Dessa vez em quatro partes. Na primeira zona, ficam aqueles que traíram o próprio sangue. Na segunda, as almas que traíram sua pátria ou partido (quantos políticos hoje em dia não viriam pra cá, heim?). Aqueles que traíram os amigos vão para a terceira zona. E por último, as almas que traíram seus senhores ou bem feitores.

Bem no meio da última zona está Lúcifer. Ele tem três cabeças e, em cada uma das suas bocas, ele mastiga um grande traidor da história: Judas, Bruto e Cássio – esses dois últimos mataram Júlio César.

Para chegar até o purgatório, onde Beatriz o espera, Dante tem que atravessar as costas peludas do Diabo rumo ao centro da terra.

Game Over. Mole, mole, não?

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.