Urubus de prateleira

Victor Vieira | Pra Ler

Mal esfriou o corpo de Steve Jobs e os donos de livrarias já puderam encher os bolsos às custas do recém-falecido. Um dia após a morte do gênio dos iPads e iPhones, quatro entre as dez obras do ranking de mais vendidas da livraria online Amazon eram ligadas ao fundador da Apple. A biografia Steve Jobs, de Walter Isaacson, tinha lançamento previsto para novembro e já foi antecipado para este mês. Da noite para o dia, essa obra, que conta a história até sua saída da Apple em agosto, aumentou suas vendas em 37.400%. Conheço pelo menos uns três que ajudaram a engordar essa porcentagem.

O que explica isso? Morbidez dos leitores, oportunismo do mercado editorial, curiosidade, fenômeno midiático… As respostas são muitas – e dão até um pouco de medo. O fato é que parece ilimitada a criatividade para lucrar em cima do defunto famoso. Não devem faltar obras sobre tecnologia, empreendedorismo, relatos biográficos ou câncer no pâncreas que vão se colar à imagem de Steve Jobs. Impressionante como eles trabalham rápido nisso, aliás.

Parentes e amigos das celebridades também não costumam comer mosca. O ex-marido de Amy Winehouse prometeu escrever uma biografia sobre a cantora. O amigo de infância de Michael Jackson e antigo esposo de Liza Minelli, David Gest, também disse que deve narrar pormenores sobre a vida sexual do astro de “Thriller”. A mãe de Britney Spears nem esperou a filha ir para o outro mundo para lançar um livro que devassa a vida da princesinha do pop.

Embora não seja assim na maioria das vezes, escrever também é um bom negócio. E fazer autópsia pelas páginas dos livros dá dinheiro. Os editores já praticam futurologia e preparam obras sobre os próximos da lista dos que vão para debaixo da terra.  Enquanto isso, você pode correr às livrarias e comprar detalhes sobre o homem que revolucionou a tecnologia. Mas guarde grana para a próxima morte ilustre. Pode ser um papa, artista ou ex-presidente: qualquer pessoa para quem você nem ligava e de repente precisa saber tudo sobre sua vida tão importante.

Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

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