Era uma vez… [2]

Na ponta da língua
praler | Pra Ler

Ela tinha só seis anos de idade quando começaram a ensiná-la a ler na escola. O que era pra ser um sonho transformou-se em pesadelo. Por algum motivo estranho, nos testes de leitura oral ela não conseguia formar uma só frase. As letras dançavam todas no papel. Só para ela, lia, e lia bem. Mas na hora de abrir a boca era um desastre. A turma toda achava graça e a professora fechava a cara.

Um dia, recebeu um comunicado da escola que dizia para procurar um professor particular caso não melhorasse na leitura. Foi pra casa, aos prantos. Não mostrou o papel a ninguém, envergonhada. Daquele dia em diante determinou que acabaria de vez com aquela história. Custasse o que custasse. Na manhã seguinte, pôs em prática seu plano: roubou um livro e levou pra casa. Todos os dias abria o volume clandestino em seu quarto e lia, repetidamente. No dia do teste, para surpresa dos colegas e da professora, leu tudo sem titubear. Ela havia decorado a história inteira.

Essa é a história de como minha mãe começou a ler. Mesmo hoje, depois de mais velha, ela conta que não se sente à vontade pra fazer leituras em público, nem um trechinho sequer.

A minha história é, ainda bem, muito diferente da dela. Acho que por medo de que as filhas passassem pelo mesmo sofrimento, minha mãe resolveu não esperar a escola. Minhas primeiras lembranças são de uma coleção de livros com pequenas histórias ilustradas que ela contava pra mim antes de dormir, quando eu ainda nem sonhava em ler. Aprendi fácil e tomei gosto pela leitura.

E essa vida é mesmo muito engraçada! Esses meus primeiros livros foram esquecidos em alguma gaveta da minha casa. Quando meu irmão cresceu um pouquinho, recuperamos os volumes. Assumi o meu papel de irmã (bem) mais velha e resolvi ler a coleção pra ele. Tive a delícia de constatar que eu ainda sabia de cor alguns trechos. Eu também decorei. De coração.