Era uma vez… [4]

O mundo do armário
Brunin Assis | Pra Ler

Eu moro na mesma casa desde que eu me entendo por gente. Os móveis são basicamente os mesmos desde que eu nasci e, na sala, continua existindo a estante de livros. A grande maioria deles veio de um tempo antes do meu nascimento, quando meus pais ainda se interessavam por eles e compravam com Acho que são os mesmos livros que estão lá, desde que eu era criança. E a figura da estante se manteve, imponente.

Os livros considerados mais importantes/bonitos sempre ficaram na parte mais alta. Nas portas de baixo, guardados, ficavam os livros que eram julgados menores e os livros didáticos que já haviam sido usados por minhas irmãs. Foi quando eu abri essas portas que eu descobri o significado do paraíso.

Eram centenas de livros guardados, só esperando para que eu, no auge da minha meninice, os descobrisse. Romances, poemas, crônicas, peças de teatro. Eu ainda era muito novo para a maioria deles, mas, no meio da bagunça, eu encontrei aqueles que mudariam todo o meu futuro: os livros da série Vagalume.

Eu devia ter uns sete anos quando descobri aquela maravilha dentro do armário e posso considerar essa como a minha iniciação na literatura. Eu me desesperei adentrando A Ilha Perdida, desvendei meu primeiro mistério com O Escaravelho do Diabo, viajei com Xisto para os mais diversos lugares e vi um Menino de Asas.

E se hoje eu quero ter o meu próprio armário de livros, é por causa dele. Por que sei que meus futuros filhos vão se deliciar com o “armário de livros velhos do papai” tanto quando eu me deliciei com o da minha casa.

Brunin Assis

Cheirei um livro pela primeira vez aos quatro anos. Aos dez já era frequentador de bibliotecas. Aos quinze comecei a consumir exemplares mais pesados. Aos vinte não conseguia mais sair de casa sem um livro. Hoje sonho em ter uma casa cheia deles, mas tenho medo de ser preso por tráfico de cultura.