E aí temos o último a desabafar na Semana das Crianças:
Mais bonitas que as de Robinson Crusoé
Talvez o melhor da literatura seja viver outras vidas sem ter que sair do lugar. Na realidade, minha infância teve pouco das fábulas de Esopo ou das aventuras com Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau. O gosto por histórias começou nas longas tardes em que passava no colo da minha avó. Junto dos cafunés, me contava os casos do tempo em que costurava roupinhas pra suas bonecas e ela era a criança.
Foram inúmeras as vezes que percorri por suas palavras a Bocaiúva dos anos 30 e sua típica vida do interior. Enquanto ela desfiava a memória, se construíam os incríveis personagens daquela cidadezinha qualquer. Pra comprar picolés, os meninos roubavam os trocados da paróquia de Padre Alderico – que era holandês e só muito depois fui me perguntar qual devia ser seu nome de verdade. Ana Grande era a louca que morava sozinha a quilômetros de distância do centro.
A Festa do Senhor do Bonfim enchia a cidade de cores e os dias se passavam nas ruas, com sabor de doce feito no tacho e fruta colhida no pé. Anos mais tarde, Bocaiúva parou pra receber os gringos que vieram de longe montar telescópios e aproveitar o melhor ponto de observação do eclipse solar.
Minha avó foi a primeira contadora de histórias de que tenho lembrança. Mesmo quando me perguntava se já tinha falado sobre algum caso, fingia que não só pra ter chance de escutar tudo outra vez. Nessa brincadeira de memória e fantasia tenho a sensação de ter vivido tudo aquilo também. Por ironia, jamais coloquei o pé no cenário desse universo infantil. Prefiro assim. Bocaiúva continua em algum ponto entre o norte de Minas e a minha imaginação.
“Bocaiúva não é uma cidade urbana. É pessoal”
Herbert José de Souza, em A lista de Ailce
Não foi só minha avó que contava histórias sobre a cidade. Seu conterrâneo, o sociólogo Betinho, certa vez encomendou à prima Ailce uma lista de pessoas da região que fizeram parte de sua infância já haviam falecido. Do pedido, saiu o livro: um retrato de Bocaiúva pelos olhos do irmão do Henfil.


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