Última entrevista [João Cabral de Melo Neto]

Victor Vieira | Pra Ler

Ele se dizia ateu. Mas morreu de mãos dadas com a mulher, enquanto rezavam um pai-nosso. Não adiantaram os dois meses de orações diárias. O poeta João Cabral de Melo Neto partiu em seu apartamento na zona nobre carioca – depois de peregrinar de Recife até a Espanha.

O escritor pernambucano sofria com a depressão:  “…poema é coisa que se faz vendo, como imaginar Picasso cego?”. Depois de perder a visão, deixou de lado a literatura e assumiu as superstições . Segundo a esposa Marly de Oliveira, jamais ficava deitado depois de acordar. Isso é coisa de quem já está esperando pelo fim.

Cabral jogava a culpa da fixação que tinha pela morte na formação cristã. “A indesejada das gentes”, como ele mesmo batizou, chegou para ele em outubro de 1999. Por coincidência, foi justamente um auto de Natal com ‘morte’ no nome o seu texto mais famoso.

Sua poesia era forte, crítica, até cerebral. Talvez pela quantidade de aspirina – ele passou boa parte da vida com enxaqueca. No inventário, tem 18 livros de poemas, dois autos dramáticos e passaporte carimbado em mais de 10 países. A carreira de diplomata deixou muitas histórias pra contar. Tentava esconder que era de esquerda, mas os próprios textos já denunciavam. Morreu velho, mas bem depois dos trinta, como nem tantos Severinos.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).   

Morte e Vida Severina, 1956

Confira a última e maior entrevista de João Cabral de Melo Neto à Revista Sibila. O depoimento foi dado em 1999 a Bebeto Abrantes, diretor do documentário Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto (2003). Informações daqui, daqui e daqui. Caricatura retirada daqui.

Aproveite para saber mais sobre a peça Morte e Vida Severina, do diretor Pedro Paulo Cava, que está nos palcos de BH aqui e aqui.

Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

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