Era uma vez um vendedor de livros

Fernanda Brescia | Pra Ler

É só chegar o fim do ano que começam a pipocar os amigo-ocultos. Uma boa opção é presentear com um livro. Mas qual? Na maioria das vezes, procurar o vendedor de uma grande livraria de shopping não vai ajudar a responder esta pergunta.

Pode parecer nostalgia ou xiismo, mas bons vendedores de livros estão virando obras de ficção (daquelas que só se encontra em sebos). O que poderia motivar tamanha falta de interesse e de treinamento dos profissionais deste ramo em um momento de crescimento do mercado editorial brasileiro? De 2009 para 2010, por exemplo, houve aumento de 8,3% no número de livros vendidos, considerando o movimento em livrarias, na internet e as vendas feitas de porta em porta*.

Pensando de maneira simplificada, vejo três possíveis respostas – dentre tantas outras – para a o atendimento decadente dos profissionais do setor. Baixos salários, poucos investimentos em capacitação por parte das empresas e funcionários sem interesse na carreira.

Um vendedor de livros não deveria indicar um título apenas para se livrar rapidamente do cliente e cumprir uma meta de venda da loja, mas é o que tem acontecido. Um profissional deste ramo tem que sentar o cliente no divã, ouvir pacientemente as questões existenciais e ajudá-lo na busca pelo encontro da prateleira perfeita. [Trago o livro amado em três dias].

Não, não estou insinuando que a melhor indicação seja um livro de autoajuda, nem de “pílulas de sabedoria”, tampouco da Bíblia! Mas é fato que comprar um livro é como escolher um namorado: não dá pra julgar apenas pela capa e pela introdução. É claro que também existe amor à primeira vista, mas para o romance decolar mesmo nada melhor do que conferir o conteúdo. E, sinceramente, pensando bem até que eu gosto do cheiro de naftalina e da barba comprida dos velhinhos donos de sebos [se não forem velhos “sebosos”, é claro].

*Pesquisa sobre Produção e Vendas do Mercado Editorial Brasileiro, divulgada pela Câmara Brasileira do Livro em 2010. Dados de compras governamentais e de entidades sociais foram excluídos.