Capítulo 25

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Natalpor Júlia Marques

Não é de hoje que o Natal ganha as páginas de livros. No mais vendido de todos os tempos – a Bíblia – lá estava o primeiro texto sobre o nascimento do menino que inspiraria tantas outras narrativas. Ao longo do tempo, as formas de viver o Natal mudaram assim como as de falar sobre ele. Talvez o mais famoso texto literário inspirado nessa data seja do inglês Charles Dickens. Em 19 de dezembro de 1843, o autor publicava um livro escrito em menos de um mês originalmente para pagar dívidas. “Um Cântico de Natal” passou de um simples alívio financeiro para tornar-se um dos maiores clássicos natalinos.

Contemporâneo de Dickens, o francês – que faleceu em um manicômio – Guy de Maupassant também publicou o seu Conto de Natal: uma recordação do Dr. Bonenfant sobre uma mulher que fora curada da loucura numa noite natalina. E o Natal russo daquele século XIX ganhava de presente o conto A Árvore de Natal na Casa de Cristo, um olhar sensível de Dostoiévski para as condições de vida de meninos e meninas “que não tiveram sua árvore na terra”.

Do outro lado do oceano Atlântico, era Machado de Assis quem se inspirava na data natalina para publicar, em 1893, um de seus mais famosos contos: Missa do Galo. A conversa ambígua entre Nogueira e Conceição na noite de Natal foi revisitada mais de 80 anos depois pela escritora Lygia Fagundes Telles. A autora inverteu o ponto de vista e narrou os momentos anteriores à missa do galo sob a perspectiva de Conceição. É de Lygia também o sufocante “Natal na barca”, narrativa que se coloca no limite entre a vida e a morte, a esperança e o desespero. Aliás, natal é nascimento, mas pode ser o oposto também em textos como o Conto de Natal de Rubem Braga, publicado em 1964.

Se a data inspira sentimentos nobres, é também verdade que poucos se furtam aos prazeres da carne numa noite natalina. “Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal”. É o que nos conta o narrador de “O peru de Natal”, de Mário de Andrade. E a virada de 24 para 25 de dezembro é momento propício para arroubos de solidariedade. “Mais um Natal”, de Fernando Sabino, narra com bom humor esse calor súbito que aquece os corações na noite de Natal (e apenas nela!). Expandir o espírito natalino para mais de um dia é o desejo de Carlos Drummond de Andrade quando escreve, em 1972, “Organiza o Natal”. O texto profetiza um tempo em que o espírito natalino inundará todos os meses do ano e será Natal para sempre, “abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom”.

Nem Cecília Meireles perdeu a oportunidade de cutucar o desvario humano na hora de encher as sacolas de compras de Natal. Em seu texto, publicado em 1982, ela denuncia que “todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso”.

É, a moeda mudou, outras coisas, não.

Veja abaixo, em ordem alfabética, uma lista de autores que escreveram sobre o Natal

Antonio Callado – Lembranças de Dona Inácia

Aramis Ribeiro CostaEra Véspera de Natal

Carlos DrummondOrganiza o Natal

Cecília MeirelesCompras de Natal

Charles DickensUm cântico de Natal

Dostoiévski A Árvore de Natal de Cristo

Fernando SabinoMais um Natal

Guimarães RosaPresepe (Em Tutaméia)

Guy de MaupassantConto de Natal

Hélio Pólvora – Conto de Natal e Natal com Julieta

João Ubaldo RibeiroJingobel, Jingobel (Uma história de Natal)

Lygia Fagundes Teles – Missa do Galo e Natal na barca

Machado de AssisMissa do Galo

Manuel BandeiraCanto de Natal e Natal sem sinos

Mário de Andrade – O Peru de Natal

Máximo Górki Sonho de uma Noite de Natal

Moacyr Scliar – A Noite em Que os Hotéis Estavam Cheios

O. Henry, pseudônimo de William Sidney Porter –  O Presente dos Magos

Paulo Mendes CamposOs reis magos

Rachel de QueirozO ateu

Rubem BragaConto de Natal

Vinícius de MoraesPoema de Natal

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.