Última entrevista [Roberto Drummond]

Victor Vieira | Pra Ler

Que o escritor já estava para se despedir, nem madame Janete – sua amiga vidente – seria capaz de prever. Enquanto o país vivia a campanha pelo pentacampeonato do time canarinho, Roberto Drummond morreu de ataque do coração. Faltavam nove dias para o lateral Cafu erguer a taça. Além da Copa do Mundo, ele estava envolvido com um romance. Só publicaram Os mortos não dançam valsa depois de sua morte. A obra curta e poética mostra a maturidade do autor, que já havia levado sua literatura pop ao topo das listas de best-sellers. Era vaidoso, com simpatia pela fama. Hilda Furacão, seu texto mais célebre, foi sucesso nas livrarias e na TV, por causa da minissérie global. Na época, ele dizia estar tão apaixonado por Hilda quanto por Ana Paula Arósio. Seu companheiro Ignácio de Loyola Brandão dizia que Drummond era criação dele próprio, “com uma personalidade singular na vida real”. Finalmente encontrou com D.J., seu antigo personagem que morreu em Paris. Partiu em dia de jogo, que tanto gostava de ver. Nem chegou a assistir o clássico contra a Inglaterra. E o Brasil acabou ganhando, mas só no futebol. Uma das suas últimas entrevistas do escritor foi leve e despretensiosa. A conversa com um estudante, ocorrida no início de maio de 2002, foi publicada no site Revelação.

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Confira a última entrevista do escritor:

Revelação: A literatura fala da alma humana e o jornalismo cobre a prática humana. Será que o jornalismo deve investigar a essência do homem, ou esse papel é só da literatura?

Roberto Drummond: O Jornalismo vive sempre momentos fugazes. Por ser um jornalismo diário, de jornal, televisão ou rádio, está de acordo com o que está acontecendo naquele dia, na véspera. Ele é perecível, mais perecível que uma maçã. Muitas vezes vem dentro do jornal gêneros que são vizinhos da literatura, como a crônica. E há casos históricos. O Hemingway cobrindo a guerra civil da Espanha escreveu um texto para um jornal americano sobre um velho na ponte que depois colocou num livro como um conto. Na verdade é um conto e dura até hoje porque ele escreveu como um escritor escreveria.

Revelação: Qual é a relação do jornalismo na sua obra literária?

Drummond: O jornalismo é sempre um auxiliar. Eu diria que é um trabalhador escravo da literatura quando o escritor é também jornalista.

Revelação: Será que o copidesque [técnica de edição que corta o que considera excessos no texto jornalístico] mata a vida no jornalismo?

Drummond: Olha, eu fui da geração copidesque no Binômio, depois na Última Hora mineira, na revista Alterosa e depois na própria “bíblia”, que era o Jornal do Brasil. Então eu fui o copidesque do Jornal do Brasil e você não imagina o meu status. Depois o Nelson Rodrigues investiu contra o copidesque – com toda a razão – fez várias críticas contra isso.
O Hilda Furacão foi escrito como um anti-copidesque, porque se eu fizesse um livro à copidesque ele não alcançaria o que eu queria e nem o sucesso que alcançou. Agora, já O cheiro de deus, eu escrevi como quem foi copidesque muito tempo porque eu precisava do texto seco, quase no osso da frase.

Revelação: Como Hemingway?

Drummond: Não, não é Hemingway porque a frase é circular. Eu precisava daquela coisa do redemoinho, em plena ação. Precisava de uma coisa magra como um redemoinho. Aquele texto nervoso, tenso, do copidesque do Jornal do Brasil me ajudou muito.

Revelação: O lead [primeiro parágrafo da notícia onde se coloca a informação principal] foi uma revolução que sua geração fez em relação ao nariz-de-cera [introdução repleta de rodeios e adjetivos]. Entretanto, hoje o lead é muito contestado, pois acredita-se que a realidade não cabe dentro daquela forma do quem-que-quando-onde-como-porque. O que acha disso?

Drummond: Eu aprendi uma coisa: não tem verdade absoluta nenhuma. Tem hora que você pode usar o lead. Tem hora que você não deve. E acho hoje que aquela revolução foi muito radical, como toda revolução. O chamado nariz-de-cera às vezes era sábio. Até hoje, conforme o texto, você pode fazer um nariz-de-cera misturado com aquele jornalismo mais enxuto.
Se você vai contar uma história policial “boa”, você tem que criar suspense. E para criar suspense você não pode fazer lead e sublead. O Garcia Marquez tem vários livros assim – pois além de um grande escritor é um grande jornalista e um grande repórter – em que ele faz exatamente isso. Tem um sequestro na Colômbia em que ele vai descrevendo pormenorizadamente o dia-a-dia de um personagem até que aconteça o crime.
Como Truman Capote fez em A sangue frio. Um crime que teve repercussão enorme, ele foi descrevendo aquilo lentamente, enxutamente, criando um suspense danado. No fim do primeiro capítulo, mesmo conhecendo o crime, você está doido para ler.
Se você for descrever os grandes crimes, se você for contar uma história sobre o Louco do Triângulo, que é…

Revelação: Louco do Triângulo?

Drummond: É um personagem famosérrimo. Você não conhece ele não?
Revelação: Não. O que ele fez?

Drummond: Louco do Triângulo era um “louco do Triângulo Mineiro”. O único escritor que fez referência a ele fui eu. Ele não foi ainda personagem de livro nenhum. Era um louco que ficava assustando muita gente, apavorando o Triângulo. O Governador era o Francelino [Pereira] ou o Rondom Pacheco. E então a Polícia Militar veio prendê-lo. Fez o cerco ao Louco do Triângulo. E ele já tinha virado lenda. E não o prendiam, e o Estado de Minas falando, o Diário da Tarde também, todos em pânico com o Louco do Triângulo. Aí o governador convocou o chefe da Polícia Militar, e ele explicou que não podia prender o Louco do Triângulo porque: Governador, na hora que a gente dá voz de prisão ele vira um passarinho. A gente põe numa gaiola ele vira uma onça pintada. Na hora que a gente prepara para dar aquele tiro para fazer a onça dormir ele vira um charuto. E é um perigo, governador, a gente pegar aquele charuto: e se ele virar um tigre na mão da gente?
Isso foi dito para o governador e saiu nos jornais. Então, se você for contar a história do Louco do Triângulo assim: era um louco que fez isso, isso, isso… não dá! Você tem que começar lentamente… descrevendo tudo…

Revelação: A realidade é mais o que percebemos ou mais o que imaginamos?

Drummond: Eu acho que a realidade, no Brasil, é uma ficção. Em qualquer país, também é, mas no Brasil a gente conhece. O Brasil é uma ficção. Minas Gerais foi escrita por Deus, Diabo, Shakespeare, Tolstoi e por aí. Para você ver, aqui mesmo
em Uberaba o Chico Xavier recebe, do além, textos do Machado de Assis e Dostoievski já traduzido para o português. E é verdade! Você compara o texto. E ele conversa com o além, dá recado, essa coisa toda. E você vai contestar? Vai contestar o Louco do Triângulo, o Zé Arigó que recebia o espírito do Dr. Fritz? Os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, essas coisas todas?

Revelação: Parece que essa realidade mágica está muito ligada à percepção de mundo que todos tivemos na infância. Percebi que todo personagem seu, quando sente uma emoção muito forte, normalmente se infantiliza. Será que com esse mundo de fadas, Papai Noel e Bicho-papão, o encantamento da infância é o paraíso mágico que perdemos e buscamos a vida toda?

Drummond: Eu gosto muito dessa sua leitura do problema da infantilização. Eu acho que o homem feliz e a mulher feliz viram crianças. Têm um comportamento de infantilismo. Isso ninguém tinha dito sobre minha obra. Já disseram tudo, tem tese de mestrado, tem coisa inclusive fora do Brasil, mas isso ninguém viu.
Eu acho até que tenho um problema. Quando viajo eu estou alimentarmente infantilizado. Tenho que tomar cuidado senão desando a comer chocolate, tudo que me proíbo eu faço (risos). E quando vou ao Mineirão ver jogo – e eu tenho que escrever sobre jogos – eu acabo chupando picolé, comendo chocolate, uma série de coisas. Agora, nisso aí é uma verdade. O personagem é infantilizado e liberto. É a infantilização como liber-tação.

Revelação: Freud explica?

Drummond: Olha, o Freud tem uma análise antológica – como tudo dele – sobre o problema da infantilização que vários psicanalistas retomaram. Um deles é que a pessoa infantiliza como uma proteção, para se fortalecer para enfrentar as coisas pela frente.

Revelação: Como a Dôia? [personagem de um conto em A morte de D.J. em Paris]

Drummond: Ali ela nem infantilizava, ela tem um surto mesmo. Ali eu fui derrotado em uma entrevista, certa vez. Porque a minha análise era política: ela viu um Cristo sendo crucificado. Ninguém aceitou. Ainda bem. Mas tem isso, a infantilização libertadora e protetora, como em Freud.

Revelação: E sobre a infantilização como forma de reencantamento do mundo, sua obra tem mesmo essa visão?

Drummond: Talvez, talvez… aí é uma leitura sua que é melhor do que a minha.

Revelação: Será que a realidade é apenas um alicerce para os nossos sonhos?

Drummond: O diabo é que o sonho da gente é um sonho perdido. O presidente da República, a política econômica… Meu próximo livro chama-se Os mortos não dançam valsa. É um livro existencialista, mas sobre as coisas simples que a gente não faz, sonhos e quimeras pequenininhos que a gente não faz, porque a gente não tem condições de fazer ou porque a gente depende de um punhado de coisas.

Revelação: As me-lhores lembranças da vida são os sonhos e ilusões?

Drummond: Ah, isso não. As melhores lembranças da vida são rea-lidade e eu trato disso no Cheiro de Deus. Só que passam rápido. É um cavalo bravo, é um beija-flor que chega à felicidade.

Revelação: Mas não seriam os sonhos despertados nesses pequenos momentos que os fazem grandes?

Drummond: Não. Eu acho que sonho é sonho e realidade é realidade. Às vezes a realidade parece um sonho porque é quando você realiza “aquele momento”, o momento que o jogador faz o gol, de um ator interpretando bem, de um escritor escrevendo bem e um homem amando uma mulher e vice-versa. A realidade é muito melhor que a ficção.

Revelação: O escritor reúne fragmentos da realidade, reconstrói os trechos em outra sequência e faz literatura. A vivência dessa reconstrução através da leitura vale como se fosse uma experiência da própria realidade, ou é outra coisa?
Drummond: Cumé que é?

Revelação: Quando a gente lê um livro e passa-se alguns anos, a memória que fica é tão verdadeira quanto as memórias das coisas vividas?

Drummond: O Mario Vargas Llosa, que é um grande escritor peruano, disse que sofreu mais com a morte da Madame Bovary [personagem de Gustave Flaubert] que de muita gente. Tem livro que você lê e que não esquece nunca. Eu te confesso que na minha experiência eu sofri mais com as frases do que com as mulheres. (risos) Consegui mais o sim das mulheres do que de muitas frases. Tem frases que ainda não consegui o “sim” delas.

Revelação: Nós vive-mos, então, numa espécie de limbo entre realidade e ficção?

Drummond: Eu acho o seguinte: por exemplo, eu estou aqui em Uberaba e eu morei em Araxá na década de 50. Então eu vi a região do Triângulo do avião e começei a voltar no tempo… foi um momento feliz, meu pai vivo, minha mãe viva, todo mundo vivo… então eu estou aqui mas lembrando de coisas de lá; daqui a pouco estou vendo a casa onde morava… estou vendo a minha irmã, estou vendo uma chuva que caiu no dia-a-dia e que virou foto… Isso é a realidade. E o Joyce, o Faulkner e a Virginia Wolf trabalharam isso muito bem com ajuda do que o Freud estava fazendo, que é a corrente da consciência. A gente está aqui, mas ao mesmo tempo a gente não está aqui. O Marcelo está ali agora com a mão sobre a mesa mas não sei aonde ele está. Aqui, acho que não. (risos) E isso é maravilhoso.
Minha vida está ótima, tudo até além do que estava planejando como escritor. Cada vez mais, porque é no mundo e não só no Brasil. E no entanto eu gostaria hoje, se eu pudesse fazer uma ilha da fantasia, de voltar para Araxá naquele dia que caiu a chuva.

Revelação: Quando você queria ser Papa?

Drummond: É, eu queria ser Papa mas ao mesmo tempo estava com um problema muito sério. Aí que Dostoievski fala que toda vida dá um livro. Mas nesse tempo eu brincava de médico com uma vizinha linda – não vai colocar o nome dela, hein?! A família dela está toda em Araxá! – e eu ficava naquele conflito, e dava injeção de água nela, era maravilhoso, arrepiante até hoje.

Revelação: E quando desistiu de ser o pontífice?

Drummond: Depois eu rompi com Deus, com a religião, e isso é muito cômico porque eu estava devendo tanta missa às almas, (risos) tantos terços e tantas promessas que tinha que cumprir, pois eu era um pecador e o padre da minha terra é aquele que está no Hilda Furacão, o Padre Nelson. Então eu fui ficando endividado, porque como pagar cinco terços por cada pecado mortal que eu cometia? Para o padre Nelson qualquer coisa era pecado. Ele proibia carnaval, proibia festas, alegria, rir – proibiu a dona Nevita de rir – proibiu o decote “bolero” das meninas…

Revelação: (lendo um trecho do livro) Você ainda acha que o diabo só faz o que Deus permite?

Drummond: Isso tá onde?

Revelação: Num diálogo do Hilda Furacão. (pág. 136)

Drummond: Tá no livro é? Quem tá falando isso?

Revelação: (mostrando o trecho para Drummond) É um diá-logo entre o você frei Malthus. Foi você quem disse.

Drummond: É… é a opinião desse que está aí no livro… (risos) que sou eu… mas não quer dizer que seja minha… (risos gerais)

Revelação: Quem não conhece sua história pessoal e lê Hilda Furacão sente-se confuso porque não sabe quais trechos são reais e quais são fictícios. Era isso quevocê queria?
Drummond: Não. Eu queria que todo mundo acreditasse em tudo, como se fosse verdade, que é o propósito de todo escritor. O jornalista não tem isso porque ele quer a certeza do que está contado. Eu quero a dúvida. Eu quero a ambigüidade, aquela coisa que é e que não é.

Revelação: Legal isso. Dá um lead.

Drummond: É, dá um lead.

Revelação: Não! Dá um título!

Drummond: É mesmo.

Entrevista encontrada no site Revelação. Informações tiradas daqui, daqui e daqui.

Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

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