Novo em folha nova

Nada muda de 31 de dezembro para 1º de janeiro. São dias, como outros quaisquer. Mas será?
Julia Marques | Pra Ler

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo
Outros dias virão […]

Era o que escrevia Carlos Drummond de Andrade em 1945. O tempo passou, ele estava certo: outros dias vieram. E cá estamos nós em mais uma virada. Nada muda de 31 de dezembro para 1º de janeiro. São dias, como outros quaisquer. Mas será? Correndo o risco de ser meio clichê, eu diria que muda, sim. Talvez por uma razão bem ortográfica. É hora de improvisar um ponto final no ano e respirar fundo pra começar o seguinte com letra maiúscula.

Pra fazer uma comparação meio literária, diria que um ano é como um capítulo de um livro. Só que, em vez de leitores, seríamos escritores das nossas histórias. Como bons escritores, articulamos, em nosso ano, aquilo que não pode faltar em nenhuma história: tempo, ação, espaço e personagens.

Tempo e ação: Existem os anos intensos. São aqueles capítulos tão cheios de acontecimentos que deixam ofegantes até os leitores mais experientes. 365 dias parece muito pouco para tudo o que se tem pra fazer. A sensação é de que não há tempo para pausas.

Existem os anos tranquilos. Aqueles capítulos que funcionam como um respiro entre os outros. Nestes, é permitido ao autor fazer suas reflexões, acertar coisas que não estavam se encaixando muito bem e preparar o texto para saltos maiores. Machado de Assis escreveu alguns assim. Me lembro de capítulos machadianos que tinham um parágrafo apenas. Quem disse que não são importantes?

Eu não queria falar deles, mas, sim, existem os anos chatíssimos. São aqueles capítulos na vida que dá vontade mesmo é de pular. Passar as páginas bem rápido e ir logo atrás de coisa melhor. Acho que todo mundo já passou por uma experiência dessas.

Espaço: Pra ser bom, não é preciso que um capítulo aconteça em um lugar mirabolante. Assim também existem anos muito legais que se passam nas proximidades. Mas, claro, uma mudança de ares pode dar uma boa reviravolta na narrativa. Aqueles anos em que nos transportamos para lugares exóticos – onde nunca imaginávamos pisar – têm um gosto todo especial. Melhor ainda quando a viagem acontece de forma inesperada, quase sem planejar. Às vezes um capítulo retoma espaços que apareceram lá atrás, no livro. É quando, por acaso, revisitamos os lugares de nossa infância.

Personagem: Impossível ler um capítulo sem personagens. Impossível viver 365 dias longe de pessoas. São elas – com suas características e complexidades – que ajudam a construir a história. Em um capítulo de livro existem aquelas personagens que são nossas velhas conhecidas: estão ali desde sempre, desde o capítulo 1. Quase conseguimos prever as suas atitudes e comportamentos.

Existem aquelas que não conhecíamos e, meio que de repente, aparecem, trazendo suas bagagens. Algumas dessas mudam um capítulo, e só. Estiveram ali só mesmo de passagem. Mas outras, sabemos, voltarão a aparecer nos capítulos seguintes. E a sensação é de que são capazes de mudar todo o curso da narrativa.

E existem as que estiveram desde os primeiros capítulos e, por algum motivo, precisam desaparecer. Sentimos falta. Como gostaríamos que certas personagens estivessem até o fim de nossas páginas! Mas, sabemos, isso também faz parte da história.

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer

(Carlos Drummond de Andrade. In: A Rosa do povo. 1945)

Entre um capítulo e outro de vez em quando fazemos uma pausa para o café – ou champanhe. É quando a gente, de branco, planeja o que a tinta vai escrever nas próximas páginas. Eu fiz um esboço. Começo a escrever. Amanhã.

 

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques