Pela primeira vez, Clarice

Jessica Soares | Pra Ler

A descoberta se deu há mais de 10 anos, quase que por acaso. O jornalista Vilmar Ledesma passeava pelo acervo da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, procurando de tudo um pouco. Em meio às andanças, chegou ao Diretrizes, jornal de Samuel Wainer fundado em 1938. Folheando aquelas páginas desacostumadas ao manuseio, encontrou, em exemplar de 1941, a matéria “Os Estudantes Brasileiros e a Literatura Universal”. O texto trazia como entrevistada ilustre uma jovem Clarice Lispector, que ainda estudava direito no Rio. Copiou a mão todo o texto – não era permitido fazer reproduções – e depois confirmou: se tratava da primeira entrevista da escritora nascida na Ucrânia, até então desconhecida.

Crédito: Vilmar Ledesma

A primeira entrevista de Clarice no caderno de Vilmar Ledesma

A entrevista foi posteriormente publicada no livro Encontros – Clarice Lispector, da editora Azougue, com organização de Evelyn Rocha. Como o Pra Ler garimpa por aí as últimas entrevistas de autores, e não poderia deixar de divulgar também o achado de Ledesma. Conferira abaixo a entrevista conforme as anotações feitas pelo jornalista em 2002. E não deixe de passar no blog dele.

“Os estudantes brasileiros e a literatura universal

Diretrizes – 30 de outubro de 1941

(Série de reportagens com universitários, no final de outubro de 1941, opinando sobre a literatura. A ilustração é de uma garota bonita, com bolsa embaixo do braço, cercada por cinco rapazes e a legenda: “futuros advogados falam sobre literatura”. Lá no final da primeira matéria, vem o seguinte trecho:)

Na faculdade de direito subimos ao primeiro pavimento do edifício da rua Moncorvo Filho. Descemos novamente e vemos chegar uma jovem a quem abordamos. Chama-se Clarice Lispector e tem traços da raça eslava. É terceiro anista, e acede prontamente em responder às perguntas do repórter.

Leio de preferência livros, diz Clarice. Quanto à literatura nacional, em minha opinião, temos ótimos escritores, capazes de rivalizar com qualquer outro de qualquer literatura. Sobre a moderna literatura nacional, conheço alguma coisa; mais talvez do que a antiga.

Pode destacar algum vulto?

Vários, como Graciliano Ramos, que me parece o maior, Raquel de Queiroz, Frederico Schmidt, etc.

Na literatura moderna nacional existe algum escritor que em sua opinião possa se nivelar a Machado de Assis ou Euclydes da Cunha?

Não se pode tomar para comparação um Machado de Assis, tão pessoal na sua obra. Mas em intensidade literária, dentro do seu próprio gênero, há escritores atuais que podem até superá-lo. Aliás, em minha opinoão, seria mais fácil superá-lo do que igualá-lo. Machado tinha muita personalidade. Como romancista, ele não é seguro, não obedece a normas; por isso me parece fácil superá-lo, mais que igualá-lo. Euclides da Cunha não me agrada….

Qual o livro nacional ou estrangeiro que lhe tenha deixado maior impressão?

Esta é uma pergunta difícil… porque eu sempre passo épocas em que tal ou qual livro me impressiona. Depois o esqueço e outro toma o seu lugar. Às vezes o que me agrada num livro é o ‘tom’, o plano em que o autor se move. E se em outro livro o autor muda o ‘tom’, eu perco o interesse. É um estado d’alma.

Acha que a Guerra possa influir sobre a literatura?

Pode. Talvez um certo ceticismo se apodere da literatura do após-guerra. Também os motivos humanos ocuparão seu lugar. Mas ao certo não se pode prever.

Qual a sua opinião sobre a ‘coleção das moças’?

Corresponde a uma necessidade da idade. Há uma fase na vida da moça em que tal literatura é indispensável. Mas apesar de eu já ter sofrido essa necessidade, hoje tenho pena das moças que lêem exclusivamente esta literatura.

E sobre a literatura infantil?

Monteiro Lobato é sozinho uma literatura neste gênero. Suas obras compõem o que há de melhor a este respeito no Brasil. Além disso, temos Marques Rebello. Ainda não se pode, todavia, confiar em uma literatura infantil no Brasil.

E sobre a poesia?

Eu nunca procurei a poesia. Gostei sempre mais da prosa. Admiro particularmente Augusto Frederico Schmidt.

Qual o maior poeta nacional em sua opinião?

Eu diria Castro Alves porque sei que é o melhor. Mas não tenho apreciação pelos condoreiros. Se a pergunta se refere aos que gosto, posso falar de Augusto Frederico Schmidt, com o seu ‘Cântico do Adolescente’ que muito me impressionou há anos atrás.

Quais os melhores livros da literatura universal, na sua opinião?

‘Humilhados e Ofendidos’, ‘Crime e Castigo’, de Dostoievski, ‘Sem Olhos em Gaza’, do Huxley, ‘Mediterrâneo’, de Panait Istrati e as obras de Anatole France em geral. Mas isto é só do que já li.”

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.