[Última entrevista] Clarice Lispector

Julia Marques | Pra Ler

“Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta”.
(Aprendendo a viver, Clarice Lispector)

Tentaram vender ao biógrafo de Clarice Lispector, Benjamin Moser, a segunda edição de A hora da estrela, autografada pela autora. Não fechou negócio. A assinatura valeria ouro de fosse de verdade. Mas Clarice já havia partido sem ver o seu último livro reimpresso. Semanas depois de publicar a vida de Macabéa –“uma moça tão pobre que só comia cachorro quente” , a escritora ucraniana perdia a sua própria, no dia 9 de dezembro de 1977, vítima de um câncer no ovário.

Clarice Lispector conhecia a morte de perto porque dizia que deixava de viver sempre que a escrita não vinha. Entre um trabalho e outro, morria, para depois renascer. Meses antes de partir, depois de já ter traçado as linhas do seu último romance, queixava-se de cansaço. Estava cansada de si mesma.

Começou a escrever assim que aprendeu a ler. E antes dos sete, já inventava suas histórias. Foi nesse tempo que inventou uma, tão complicada que nem ela mesma conseguiria explicar. Era uma história que não acabava nunca. Em versos, um amigo poeta contou que, enquanto a enterravam, o clarão do olhar soterrado de Clarice resistia ainda.

A última entrevista de Clarice Lispector foi concedida ao jornalista Junio Lerner para o programa Panorama no início de 1977. A condição era de que só fosse veiculada após a morte da escritora. Confira a seguir:
 
 

Imagens: Divulgação/Internet

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
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