O feito a mão na contramão?

Jessica Soares | Pra Ler

“Os leitores querem que os volumes em suas prateleiras sejam tão marcantes e tão sensoriais quanto for possível. E assim, enquanto a maioria dos editores está correndo para manter-se a frente na corrida pela conquista da tela, os verdadeiros visionários podem muito bem ser as pessoas que estão fazendo algo muito antiquado, muito bem”. Essa é a visão da editora de literatura do Telegraph, Gaby Wood.

Não é só um discurso em defesa de uma arte moribunda. Wood acompanhou de perto as atividades atuais da  Slightly Foxed, uma editora com quase três séculos de história. Localizada em  Clerkenwell, cidade da Inglaterra, a editora fundada em 1768 começou suas atividades com a revista quadrimestral de mesmo nome, ainda hoje em circulação. A ideia era reunir um grupo de pessoas e dar a elas espaço para falarem sobre as obras que mais as tocavam. Da mesma forma que hoje precisam justificar o que os levam a produzir livros de papel, na época precisaram responder porque alguém se interessaria por ler artigos sobre livros já antigos. Um apaixonado pela literatura arriscaria uma resposta. Mas o fato é que a ideia vingou: a revista segue firme com sua proposta e conteúdo eclético distribuída em tiragens de 7.500 exemplares.

Se a proposta pode parecer “ousada”, nem se compara ao modo como a editora opera hoje. É publicada apenas uma obra a cada quatro meses, todas memórias esgotadas no mercado. As edições são limitadas a 2.000 exemplares, numeradas a mão. O trabalho manual é, inclusive, a essência de todas as obras que publicam, como pode ser visto no vídeo que mostra o nascimento cuidadoso de cada exemplar publicado pela editora, que pode ser assistido abaixo. Cada uma dessas obras é vendida por 12,50 libras. “Se você faz seu dever de casa cuidadosamente, é uma aposta calculada, e não um tiro no escuro”, afirma a editora Gail Pirkis.

O esmero com que é feito cada um dos exemplares faz com que eles pareçam antiguidades em seu próprio tempo. Mas não se pode dizer que são antiquados. O crescimento da procura por ebooks faz com que livros físicos como esse ganhem um espaço no mercado. O caso da Slightly Foxed ajuda a comprovar a ideia: o lucro que eles obtém com o trabalho é real, e estão longe de decretar falência. “Nunca seremos ricos”, diz Gail, “mas não há porque não ser bem sucedido quando se faz algo de qualidade”. E quem irá dizer que não existe razão?

Assista abaixo ao processo de confecção das obras da Slightly Foxed:

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.