[Última entrevista] Zélia Gattai

Victor Vieira | Pra Ler

No espaçoso apartamento em Salvador, tudo lembrava Jorge Amado. Fotos, livros, quadros, até um busto sobre a mesa. O cãozinho Fadul Abdala e uma mesa de sinuca para fazer companhia. A casa no Rio Vermelho, também na capital baiana, agora é passado. Pelo portão da residência tão famosa, cruzaram artistas, presidentes e moleques de quitanda. Talvez o endereço antigo – onde o casal viveu por quase 40 anos –  vire um memorial.

O longo casamento com o escritor poderia rer freado a carreira de Zélia Gattai. Não foi o caso. A estreia na literatura, de fato, só veio aos 63, mas deu tempo para 14 títulos. De herança, o marido deixou até a imortalidade. Zélia ocupou sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.  A escolha, claro, rendeu várias críticas. Outro concorrente ao fardão, Joel Silveira, disse que ela não sabia escrever. A autora disse não dar bola.

Anarquista, graças a Deus, e amiga de Antônio Carlos Magalhães, que não teve nada de santo. Fã da prosa de João Ubaldo Ribeiro e dos amores da novela das oito. Da morte, que viria em poucos meses, nenhum medo. Após a partida de Jorge, nada mais assombra a nonagenária Zélia Gattai. Sentada sobre a cadeira de rodas, o tubo de oxigênio ajuda a persistir na vida. Termina o novo livro, se a saúde deixar. O resto é memória e saudade.

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Confira uma das últimas entrevistas dadas pela escritora Zélia Gattai ao jornal Folha de S. Paulo.

FOLHA – O que é viver para a senhora sem Jorge Amado?

ZÉLIA GATTAI – Desde a morte de Jorge, há um vazio, uma ausência muito grande em minha vida. Eu sonho muito com Jorge Amado. No mês passado, quando estava internada, queria sair logo do hospital, mas os médicos não me davam alta. Então, sonhei que estava em um local com muita palha. Uma mão se mexia, era uma mão muito gelada, era a mão de Jorge Amado. Então, falei assim: “Jorge, se você estiver me ouvindo, me leve, você já conhece tudo aí, está com os nossos amigos, quero ficar com você”.

FOLHA – Então, a senhora não tem medo da morte?
ZÉLIA – Claro que não tenho medo da morte. Depois que Jorge se foi, não há nada que me assombre.

FOLHA – A senhora sempre disse que o casamento com Jorge Amado foi perfeito. Vocês nunca brigaram, nunca tiveram crises?
ZÉLIA – Nunca briguei com ele. O que havia em nossa convivência era graça, cumplicidade, amor e respeito. E, seis anos após a sua morte, ainda o vejo todos os dias. No começo deste ano, quando estava novamente na cama de um hospital, senti uma mão tocando o meu tornozelo, subindo levemente até a panturrilha. Aí, sem que nada mais acontecesse, a sensação foi interrompida. Contei o que senti para o [escritor] João Ubaldo [Ribeiro], que também estava internado no mesmo hospital. E ele me respondeu: “Zélia, a mão não era do Jorge. Se fosse, ela não se contentaria em parar na panturrilha”.

FOLHA – Jorge Amado era então muito namorador?
ZÉLIA – Quando conheci o Jorge, ele era muito respeitador, não era daqueles rapazes que vão metendo a mão (risos). Depois, a nossa convivência evoluiu muito. Sempre nos amamos muito. Na casa onde moramos por quase 40 anos, no Rio Vermelho, a gente acordava muito cedo para caminhar de mãos dadas pelo jardim. E, todos os dias, ele me falava a mesma coisa: “Quando eu morrer, quero ficar por aqui [as cinzas do escritor foram depositadas ao lado de uma árvore da casa]”.


FOLHA – A senhora acha que falta vontade política para concretizar o sonho da família, que é a montagem do memorial Jorge Amado?
FOLHA – A senhora lembra com carinho dessa casa, mas o imóvel está hoje com péssima aparência e problemas de infra-estrutura. O que a senhora sente quando vai à casa?
ZÉLIA – Fico com o coração apertado em ver como está a casa que é um pedaço da minha vida. É uma pena que tudo isso tenha acontecido.

ZÉLIA – Acho que a situação deveria estar resolvida há muito tempo. Nós não pedimos verba para o governo. Nós elaboramos um projeto com base na Lei Rouanet. Entramos com um pedido de R$ 3,5 milhões e só conseguimos a liberação de R$ 150 mil para captarmos com empresas interessadas no financiamento. É evidente que esse dinheiro não é suficiente.
Depois, a Petrobras, que tinha demonstrado interesse na restauração, recuou. Mas agora as coisas parecem que estão caminhando. Como algumas pessoas dizem, parece que a gente não fez nada na casa depois que Jorge morreu, o que não é verdade. Nos últimos quatro anos, investimos quase R$ 600 mil na montagem do projeto do memorial e em reformas.

FOLHA – A Fundação Casa de Jorge Amado, que abriga todo o acervo deixado por seu marido, também atravessa grave crise financeira.
ZÉLIA – Pois é, houve um corte de verbas muito grande e os dirigentes da fundação foram obrigados a tomar medidas para conter as despesas,, mesmo que isso significasse colocar em risco o acervo deixado por Jorge. Mas não perco a esperança.

Recentemente, minha filha [Paloma] recebeu ligação de Fátima Mendonça [mulher do governador da Bahia, Jaques Wagner] dizendo que as coisas vão melhorar. Devemos muito ao João Ubaldo Ribeiro, muito passional, que levantou a bandeira da restauração.

FOLHA – Neste ano, a senhora perdeu um dos maiores amigos da família Amado, o senador Antonio Carlos Magalhães. A senhora acha que ele faz falta à Bahia?
ZÉLIA – Claro que faz falta. Antonio Carlos Magalhães foi um grande político, uma pessoa que sempre colocou os interesses da Bahia à frente de tudo.

FOLHA – Como a senhora avalia os dez primeiros meses da administração do governador Jaques Wagner?
ZÉLIA – O tempo é curto demais para qualquer avaliação. Mas existe uma esperança muito grande para que o governador melhore a vida dos baianos.

FOLHA – Qual a opinião da senhora sobre o governo do presidente Lula?
[Paloma não deixa a mãe responder e diz: “Vamos mudar de assunto para ela não ficar cansada. Os médicos me recomendaram muito repouso para ela se recuperar rapidamente”.]
FOLHA – Tirando Jorge Amado, quais os seus escritores preferidos?
ZÉLIA – Érico Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro.

FOLHA – Depois da morte de Jorge Amado, a senhora releu livros dele?
ZÉLIA – Reli toda a obra e, cada vez, fico mais encantada com a sua forma simples de escrever, a facilidade que ele tinha para contar as histórias do povo, das pessoas humildes, da Bahia.

FOLHA – Quais os livros de Jorge Amado que a senhora mais admira?
ZÉLIA – “Capitães da Areia” (1937) e “Tenda dos Milagres” (1969) são fundamentais.

FOLHA – Como se conheceram?
ZÉLIA – Quando o conheci, já tinha lido uns dez livros dele e era admiradora de sua obra. Houve um comício no estádio do Pacaembu para comemorar a liberdade de Luiz Carlos Prestes [1898-1990, militar e líder comunista brasileiro]. Quando Jorge soube do comício, resolveu participar das comemorações, mesmo proibido de sair da Bahia sem permissão das autoridades. Eu estava no meio de milhares de pessoas quando ouvi: “Jorge Amado está aqui, Jorge Amado vai participar do comício”. Pouco tempo depois, vi um rapaz magro sendo cumprimentado por todo mundo.

FOLHA – Mas como a senhora se aproximou dele?
ZÉLIA – Foi incrível. No meio de tanta gente, ele pôs os olhos em mim e falou: “Você vai trabalhar comigo”. Tremi de emoção. Depois, ele me pediu para datilografar um telegrama, e eu disse que não sabia datilografia. Ele respondeu: “Você não sabe escrever à máquina? Que moça mais inútil (risos)”.

FOLHA – E o que aconteceu depois?
ZÉLIA – Como ele viu que eu não sabia datilografia, passei a colaborar com a organização do comício. Mas, no dia seguinte, eu me matriculei em uma escola e, em pouco tempo, escrevia com rapidez. Aí, cheguei para ele e disse: “Jorge, vou lhe ensinar datilografia porque você escreve só com dois dedos (risos)”.

FOLHA – E o namoro, como começou?
ZÉLIA – Como dizem os jovens, rolou um clima entre nós. Um dia, Jorge Amado me convidou para ir a um jantar em homenagem ao poeta Pablo Neruda (1904-1973). Após a confraternização, ele foi levar o Neruda ao hotel e me deu uma carona. Jorge nunca dirigiu na vida, então fomos de táxi. Em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, ele pediu para o motorista parar o táxi e comprou uma lata enorme cheia de cravos vermelhos e os atirou em mim. Tomei um banho de cravos, dos pés à cabeça, fiquei toda molhada. Esse foi o começo de uma vida em comum que durou 56 anos.

FOLHA – Além das fotografias, o que mais faz a senhora se lembrar de Jorge neste apartamento?
ZÉLIA – Tenho um quadro que ganhamos do Di Cavalcanti (1897-1976) que me lembra muito o jeito irreverente do Jorge. Você pode não acreditar, mas esse quadro foi trocado por um cachorro. O Di Cavalcanti ligou para o Jorge e propôs a troca. Ele ficou tão satisfeito com o negócio que veio pessoalmente trazer o quadro.

FOLHA – Na literatura brasileira, a senhora apontaria algum escritor com estilo parecido ao de Jorge Amado?
[Paloma não deixa a mãe responder: “Acho que essa pergunta não deve ser feita, porque ela está lendo pouco ultimamente por causa dos problemas de saúde”.]

FOLHA – A senhora tem planos para escrever um novo livro?
ZÉLIA – Estou escrevendo, mas é um segredo. Tive de interromper os trabalhos por causa da saúde. Mas, quando estiver totalmente recuperada, volto ao computador.

Informações da Folha de S. Paulo, Revista Cult e Revista Época.

Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

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