Os personagens de Chico Anysio

Os personagens de Chico AnysioDylan Luder / unsplash

Ele teve oito filhos e seis esposas. Se contarmos os personagens, a família Chico Anysio ainda ganha mais 209 membros. E certamente o amado mestre do humor brasileiro vai deixar saudade pelo país inteiro. Um bom jeito de relembrar os tipos criados pelo ator – que morreu aos 80 anos na última sexta – é folhear o livro É mentira, Chico?, organizado por Ziraldo. O escritor e cartunista mineiro convidou vários colegas para fazer a homenagem. O trabalho coletivo rendeu uma enciclopédia ilustrada, lançada em 2007, em que quase 80 personagens de Chico Anysio ganham caricatura e biografia. No time de desenhistas, aparecem os irmãos Paulo e Chico Caruso, Cárcaro, Aroeira e outros.

Coalhada, por Quinho

Velho Zuza,por Baptistão

Azambuja, por Amarildo

Paulo Jeton Semuah, por Cassio Manga

Pantaleão, por Amarildo

Durante a leitura, é possível descobrir novidades sobre velhos conhecidos dos fãs de riso. Bozó, não podia ser diferente, tem o mesmo sobrenome que os donos da Rede Globo e assina como Sérgio Dias Magalhães Marinho.  Também ficamos sabendo que Azambuja, carioca nascido no Estácio, pode ser filho do cantor Roberto Silva. E que o registro civil de Pantaleão não diz o estado, só que o contador de casos vem lá do Nordeste. Mentira, Terta? Não, tudo verdade.

Confira um trecho do livro:

“Roberta – E aí, seu Pantaleão? Qual é o causo de hoje?
Pantaleão – Tem causo não. Só umas estórias besta.
Roberta – Sem uma historinha eu num saio daqui…
Pantaleão – Então é aí mesmo que eu num conto…
Terta – Conta a história do poste de Jaboatão…
Pantaleão – Pois bom. Sucedeu-se em novecento e vinte sete… Eu tava em casa lavando o rosto…
Pedro Bó – … com água?
Pantaleão – Não, Pedro Bó. Com mijo. Pedro Bó, tenha paciência…
Terta – Conta a estóra, home.
Pantaleão – Pois bom. Quando eu acabe de lavá o rosto, chega compadre Bil já com uma montaria pronta pra me levá pra Jaboatão.
Roberta – O quê que era?
Pantaleão – Num vê a senhora que uns caçador tava no mato, um deles sentiu sede, e começaro a subi num coqueiro mode pegá um coco. E tá subindo, tá subindo, e nada de chegá no coco. E tá subindo e tá subindo e nada de chegá no coco. Quando ele já pra cima das árve, qui olho pra riba, qui viu. Num era um coqueiro, era um poste. Ele olhou, disse que tinha bem mais uns trezento metro pra cima e uma luzinha acesa lá na pontinha.
Roberta – Cruz credo.
Pantaleão – Pois bom, eu não acreditei muito, porque era uma históra de caçador e por incríve que pareça tem caçador que mente, mas eu fui lá. Cheguei lá já tava tudo os maioral da cidade, prefeito, discutindo com deretor da laite: vocês que botaro esse poste, num fumo, fôro, num fumo, fôro, num fumo, o vigário já tava dizendo que era praga do maligno, quando eu matei a charada.
Pedro Bó – Com um tiro?
Pantaleão – Não, Pedro Bó, com uma cabeçada igualzinha a uma que eu vou te dá agora no baixo ventre.
Roberta – Pelo amor de Deus, seu Pantaleão. Acaba a história…
Pantaleão – Pois bom, num tinha mistério nenhum… é que uns 40 ano inhantes aquilo tinha sido terra dum japonês que passou dois ano adubando o terreno. Dispois teve lá um desgosto com a muié, largou tudo e vortô pro Japão. Dois ano dispois a laite passou posteando o terreno, botou o poste no lugá adubado, o adubo do japonês tava concentrado, o poste cresceu.
Roberta – Vige.
Pantaleão – É mentira, Terta?
Terta – Verdade!

(Extraído do livro É mentira, Chico?)

O humorista Chico Anysio também escreveu mais de quinze livros, entre eles O Batizado da Vaca e, ironicamente, Como salvar seu casamento.

Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

Últimos posts por Victor Vieira (exibir todos)