[Última entrevista] Jorge Luís Borges

Victor Vieira | Pra Ler

Certa vez ligaram para Dona Leonor:

– Vou matar você e seu filho.
– Por quê, senhor?
– Porque sou peronista.
– Bom, meu filho sai todos os dias às dez da manhã. É só esperar e matá-lo. E quanto a mim, aconselho a não perder tempo falando ao telefone. Se não se apressar, eu morro.

O misterioso do outro lado da linha não fez questão de correr. Nem ela – que morreu espontaneamente mais de dez anos depois, às vésperas do seu centenário. O filho de Dona Leonor, Jorge Luís Borges, também escapou ileso da ameaça.

Se o presidente Juan Perón era alvo de ódio, a mãe foi amor para toda vida do escritor argentino. A  cegueira, maldição de família, obrigou Jorge e Leonor a partilharem a velhice. Passou a depender dela ainda na meia idade, quanto a vista começou a falhar. A velha senhora escrevia os versos criados pelo filho. Mas Leonor continuava a ditar as regras.

O poeta era um sujeito complexo, ambíguo, sinuoso. Quem não arrisca pela ficção, tenta desvendá-lo na psicanálise: entre o pai anarquista e a mãe autoritária. Mesmo morta, Leonor o seguiu até o final.

Borges terminou cansado, solitário, imerso na escuridão. Os olhos eram só dois espelhos pra dentro do labirinto.

Confira a última entrevista dada pelo autor à jornalista Gloria López Lecube, poucos dias antes dele morrer. Os fragmentos foram resgatados por Carlos Polimeni para a rádio Del Plata.

Entrevista retirada de Fortunaweb. Imagens de reprodução.

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Victor Vieira

Não leio bula de remédio. Falar isso seria exagero e estou longe de virar hipocondríaco. Mas é verdade que com as letras arrisquei quase tudo. No jornalismo, aprendi a espremer palavras para sair notícia. A ficção me ensinou a percorrer lugares na distância entre uma prateleira e outra. E escrever garante, a mim e a quem mais embarcar, novos roteiros para essas viagens.

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