“A poesia pretende talvez a desrazão”

“A poesia pretende talvez a desrazão”Maciej Korsan / reprodução

Uma mesa de sinuca num canto. De frente para o balcão, um pequeno palco com um microfone. As mesas de plástico amarelas ocupam todo o resto do espaço. O Bar do Bozó está cheio. A toda hora mãos se esticam no ar pedindo mais uma cerveja gelada ou um tiragosto qualquer. O burburinho de conversas e risos enchem o lugar e caí uma chuva fininha lá fora. Era dia 14 de março, segunda quarta-feira do mês. Dia de Coletivoz, movimento de resistência cultural na periferia, que traz sarais de poesia para bares longe do centro da cidade. Logo que Rogério Coelho, articulador do projeto, sobe ao palco e abre o microfone para a poesia, a conversa diminui. Só se ouve as poesias recitadas e os aplausos, logo depois.

O Pra Ler esteve lá e conversou com Rogério Coelho. No programa que foi ao ar hoje na Rádio UFMG Educativa, tem dica sobre os encontros e leitura de um trecho de Um corpo da cidade, um livro que é pra ser lido em voz alta. Aqui no site, uma pequena entrevista sobre a proposta do projeto e sobre o ato político por trás do microfone aberto na periferia.

Que vozes são essas que vocês querem abrir espaço no Coletivoz?
A cada sarau a gente tem uma descoberta nova. O sarau não tem fins lucrativos, religiosos ou financeiros. A iniciativa é de abrir o microfone num bar de periferia. Então que voz que surge a partir daí? É uma produção cultural própria da periferia. Muitas vezes a gente tem um encontro com os rappers, com pessoas com uma produção que ainda não é tão divulgada em outros lugares, autores que estão começando, que vem fazer lançamentos. A gente fala muito que o sarau vem agregar os coletivos e por isso a voz coletiva. A voz de todos os coletivos. Tem também aquele poeta de gaveta, que vem num bar e está acontecendo um sarau. Ele vê as pessoas recitando e tem a mesma intenção, a de tirar as coisas da gaveta e recitar. Também tem a ideia das pessoas começarem a escrever a partir dessa oralidade que está sendo praticada num lugar não convencional da poesia. Isso tudo são agregados dessa voz.

Explica para gente essa proposta política por traz do Coletivoz.
Em primeiro lugar, a gente escolhe a periferia como ponto de difusão cultural. Só aí a gente já tem um lugar de resistência cultural que também é um lugar não convencional da arte . Não é natural isso, mas há uma naturalização de que não há movimentos culturais na periferia. O sarau se torna um ato de repensar a identidade nesse lugar. Quando se fala a partir desse espaço, a gente fala dos problemas desse lugar. Então as vozes de denúncia aparecem. Consequentemente, as vozes do contraste social aparecem muito fortes. Todas as pessoas que vêm de fora pra entender que espaço é esse, já começam a ver o lugar como uma possibilidade de mudança. Por que não se pode ter movimento cultural constante na periferia? Essa é a primeira instituição que a gente imagina com esse ato político.

Por que a escolha da poesia pra dar voz à periferia?
Eu venho da poesia. Eu venho da Letras, do estudo dessa nova literatura marginal, [que surgiu] a partir do final da década de 80 e década de 90. Uma literatura do periférico falando sobre a sua relação, da sua condição, nos tempos de agora. E eu acho que os movimentos de poesia, como o Cooperifa, ganham uma proporção diferente, que não é um palanque de uma voz que pretende a razão. A poesia não pretende a razão, ela pretende talvez a desrazão. E ela pega as pessoas em um outro lugar. A poesia tem uma liberdade para ser articulada, para ser desarticulada, para ser condensada, para ser um pouco mais aberta. Para ser amigável ou para não ser também. Ela permite vários trânsitos entre as pessoas que não estão acostumadas a ouvir poesias. Se a gente vai para o microfone fazer discurso, a gente vira político. Político de quê? Nós não somos partidários.

Vocês gostam de chamar esse momento do sarau de “possibilidades de leitura”. O que isso significa?
Essa expressão surgiu quando a gente começou a entender os movimentos culturais da periferia. Já atuavámos com o teatro, com intervenções diversas, nos bairros e nas vilas e começamos a ver essas possibilidades de leitura. Todo o nosso dia é permeado por possibilidades de leitura. A poesia acontece independente do movimento humano, ela está instalada nesse movimento e as possibilidades de leitura são essas que nós criamos como artifício para ler diferente esse cotidiano, essa atividade urbana que [hoje] dá uma resposta muito rápida e muito dura para a gente. Uma pessoa passa em frente ao bar e vê um sarau, ouve poesia num lugar onde não é costume. Isso é uma possibilidade de leitura que está se abrindo.

Onde, quando e como?
Os sarais de poesia do Coletivoz acontecem toda segunda quarta-feira do mês, no Bar do Bozó que fica na Av. Djalma Vieira Cristo, número 815, Vale do Jatobá. O próximo Coletivoz será no dia 11 de abril.

Imagens: no flickr do Coletivoz

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.