Livros que não têm preço

Livros que não têm preçoDylan Luder / unsplash

À primeira vista, trata-se de um livro comum – cheio de palavras, frases, parágrafos e páginas, como outro qualquer. Mas, em sua capa, algo o difere das demais: seu preço é de exatamente $0.00 e as palavras “This novel is free” – este livro é gratuito. Essa é a proposta da editora Concord Free Press.

Como seu nome já indica, trata-se de uma empreitada sem fins lucrativos. A única condição para ter o livro em mãos é doar alguma quantia para a instituição de caridade de sua escolha, registrar sua doação através do site, e se comprometer a passar o livro para a frente quando terminar a leitura. Até o momento, as vendas de cópias das sete obras publicadas na Concord arrecadaram um total de $275,295 destinados a diversas instituições.


Uma das obras publicadas pela editora é Give and Take, escrito pelo fundador da Concord, Stona Fitch. O livro, que segundo Fitch é um tipo de versão atualizada do conto de Robin Hood,  havia sido comprado em 2007 por uma editora “convencional”. Acidentes de percurso (o editor responsável deixou o ramo) fizeram com que a obra nunca fosse publicada. Ao invés de enfrentar novamente o difícil percurso para publicação de sua obra, resolveu criar a Free Press. A filosofia da empresa mistura um pouco de sua outra atividade – ele trabalha em uma fazenda que produz alimentos para serem doados a abrigos locais.

Para tornar a proposta possível – principalmente a parte financeira – a Free Press conta com uma parceria com a Kodak para impressões digitais, que garante um bom acabamento aos livros. Na parte editorial, há um esforço de procurar autores já publicados, mas que tenham interesse em divulgar trabalhos mais “alternativos”. Os escritores que topam se aventurar continuam a deter os direitos autorais de sua obra, o que garante que possam publicá-la novamente através de outra editora. Além disso, Fitch conta também com a ajuda de um conselho editorial formado por autores como Russell Banks, Megan Abbott e Joyce Carol Oates, responsáveis por selecionar e procurar escritores interessados em se juntar ao experimento pouco ortodoxo.

Apesar das parcerias, todo o processo se mantém bem “caseiro”. Operando em uma pequena sala acima de uma padaria localizada na cidade de Concord, no estado norte-americano Massachusetts, a ideia é fazer com que a empresa seja o exato oposto de qualquer editora convencional. Não há espaço para erros: os livros são distribuídos de forma lenta e cuidadosa. Para fazer tudo funcionar, Fitch trabalha com voluntários, presentes em todas etapas do processo. No time de bons samaritanos estão também os designers e escritores, que precisam aderir à filosofia: os livros não têm preço, o que significa que também não rendem lucros. Ou seja, nenhum dinheiro entra no bolso dos envolvidos.

Uma vez editado e diagramado, 3000 cópias do livro são impressas e distribuídas em mais de 50 livrarias independentes – gasto que é coberto por ser uma instituição sem fins lucrativos. Leitores de todo o mundo podem ter uma cópia do livro. Para isso, devem apenas “prometer” fazer uma doação a uma instituição de caridade – a escolha é livre, mas cada obra indica uma instituição – registrar a doação no GivingTracker, e se comprometer também a passar a obra para frente. Infelizmente os interessados de quatro países não podem mais solicitar cópias: devido a abusos (a solicitação de cópias sem doação em contrapartida), Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia foram cortados da lista de entregas. 

E esse sistema funciona? Segundo o autor-empreendedor, o segredo para o sucesso é simples: “Eu sou um escritor e tudo que um escritor quer são leitores”. Já na contabilidade financeira, Fitch afirma que não há a proposta de se fazer uma fiscalização de doações, mas diz já ter ficado sabendo de livros da Concord Free Press na Escócia, Paquistão e Iraque – dizem até que um livro já passeou pelo México, Estados Unidos e Europa. E você – já viu algum desses por aí?

Vimos no Huffington Post.
Imagens: Divulgação

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.