As muitas vidas de Bob Dylan

As muitas vidas de Bob DylanJuan Osborne

Nasceu Zimmerman, mas cresceu com o nome que dizem ter pegado emprestado do poeta galês Dylan Thomas. Ele nega – como nega também qualquer tentativa de explicar suas escolhas. Optou pela mudança constante. Preferiu só confiar nas pessoas loucas – que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas que queimam, queimam, queimam*. Ao longo dos anos, teve muitas vidas, esteve lá, esteve em qualquer lugar e esteve em lugar algum. Poeta, profeta, farsa ou fora-da-lei, o controverso músico acumula diferentes títulos, que se prestam apenas a ressaltar que ele não é um só. Bob Dylan são vários, é nenhum.

O mestre está em solo brasileiro. Com o pé na estrada desde 1988 com a Never ending Tour, Bob Dylan faz seis apresentações no Brasil até a próxima semana. A primeira aconteceu no último domingo, no Rio de Janeiro; ele depois segue rumo à Brasília para show na terça-feira; desembarca quinta-feira em Belo Horizonte e ainda passa por São Paulo, no próximo sábado e domingo, e em Porto Alegre, no dia 24. Claro que a visita do músico (cantor, compositor, escritor e artista) que já acumula mais de 50 anos de carreira não poderia passar em branco por aqui.

Somente a influência de Dylan na música popular americana já inspirou centenas de livros, teses e tratados, além de terem lhe rendido uma série de prêmios – são 11 Grammys, um Globo de Ouro e um Oscar pela canção Things have changed, do filme Garotos Incríveis (2000). Em 2008, recebeu também uma menção especial do prêmio Pulitzer, em reconhecimento ao seu “profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de força poética extraordinária”.

Dylan, que já se aventurou pela literatura – escreveu em 1966 o livro Tarantula, publicado no Brasil em 1986 pela Brasiliense; e também a auto-biografia Crônicas Vol I, lançada em 2005 – é tema de outras muitas obras. Se questionado sobre o número exato, talvez ele rebatesse a pergunta com “são 136 ou 142”, mas a verdade é que o número não importa. O importante não é tentar explicar o mito, mas sim conhecer mais sobre aquele que é considerado por muitos o maior nome da música mundial.

Para quem aguarda ansiosamente os shows do cantor – ou quer saber mais sobre sua figura enigmática – o Pra Ler fez uma seleção com livros e filmes que se aventuram por algumas das muitas estradas percorridas por Dylan. Confira abaixo:

Don’t look back (1967)

O documentarista D.A. Pennebaker acompanhou Dylan em sua turnê de 1965 pela Inglaterra, registrando o que acontecia nos bastidores e nos palcos do então jovem artista de 23 anos. Na época, o cantor começava a sua transição para a guitarra elétrica – uma decisão que gerou polêmica e exaltou os ânimos dos fãs.

No Direction Home. A Vida E A Musica De Bob Dylan (1986)

O escritor Robert Shelton conheceu Bob Dylan pouco tempo depois da chegada do cantor à Nova York. Se tornaram amigos, o que pode explicar o fato de Shelton ser um dos poucos a ter acesso a pessoas próximas de Dylan, que aparecem na biografia lançada originalmente em 1986 – uma das poucas escritas com contribuição ativa do cantor. O livro, que estava esgotado há quase uma década, foi relançado no ano passado em comemoração aos 70 anos do músico e é considerada a mais importante biografia do Mr. Tambourine Man.

Like A Rolling Stone (2005)

Like a rolling stone, canção que abre o albúm Highway 61 Revisited, de 1965, é revisitada, revista e repensada no livro escrito pelo veterano da revista “Rolling Stone”, Greil Marcus. Além de um estudo aprofundado da emblemática canção, o jornalista passeia pela formação e carreira de Bob Dylan, discute os elos da composição do músico com outras canções seminais do rock e explora as muitas leituras e imagens permitidas pela letra.

No direction home (2005)

O documentário dirigido por Martin Scorsese se concentra nos primeiros 6 anos de carreira do músico – desde sua chegada em Nova York, em janeiro de 1961, até seu acidente de motocicleta em 1966 e seu consequente afastamento temporário dos palcos. Durante três horas, Scorsese aborda a grande influência de Dylan na música do século XX e todas as polêmicas geradas pelos diferentes estilos e vidas que ele percorreu nesse curto (e emblemático) período.

Não estou lá – I’m not there (2007)

Até o fantasma de Dylan são vários. No filme de Todd Haynes, seis atores representam as diversas fases e facetas da vida e obra de Dylan. O longa recria diversos momentos emblemáticos da vida do músico, mas está longe de ser uma biografia – está cheio de poesia e possíveis interpretações, assim como Dylan.

Forever Young (2008)

As letras de Dylan continuam impressionando os jovens. Em parceria com o ilustrador Paul Rogers, o músico lançou em 2008 um livro dedicado a crianças com idade acima de três anos. Forever Young, inspirado pela música de mesmo nome primeiro ouvida no álbum Planet Waves, de 1974, é uma leitura interessante para quem ainda tem dúvida do poder das imagens permitidas pela obra do cantor.

* “Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo,que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas e todos dizem ‘Uau!’” – Trecho do livro de Jack Kerouac, On the road, que Dylan declarou ter sido uma das obras que mais lhe marcaram.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.