220 anos se passaram desde a morte de um dos grandes personagens da história nacional. A imagem de Tiradentes foi construída ao longo das décadas para ser a de um grande mártir, tanto na busca pela Independência do Brasil quanto na formação de uma identidade nacional. O feriado comemorado hoje é a celebração máxima de tudo que representou a Inconfidência Mineira.*
Mas os principais nomes ligados à insurreição não ficaram marcados apenas nas páginas de História. Além de conspiradores, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga foram os dois poetas mais importantes do Arcadismo no Brasil.
Glauceste Satúrnio e Dirceu foram os pseudônimos pastorais escolhidos pelos autores, como era costume entre os árcades. Na obra dos dois, o sentimento de refúgio no campo e da idealização de um ambiente pastoril, com mulheres e amores perfeitos. Nice nunca correspondeu ao amor de Glauceste. Já Marília vivia nos versos de Dirceu até eles serem separados por um oceano.
“Tu, Marília, agora vendo
De Amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo,
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto,
Que ele foi quem me venceu.”
Lira II, Tomás Antônio Gonzaga
Tomás Antônio Gonzaga também escreveu o poema satírico Cartas Chilenas. A presença do Chile e do governador chileno Fanfarrão Minésio é mera alusão. Gonzaga, na verdade, traz a tona a política da cidade de Vila Rica e faz críticas pesadas a Luís da Cunha Meneses, governador de Minas na época da Inconfidência.
O destino dos dois poetas foi marcado pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, que denunciou todo o grupo de inconfidentes. Presos, os amigos viram sua vida se modificar.
Segundo a versão oficial, Cláudio Manuel da Costa teria delatado, sob tortura, os participantes da insurreição e, não resistindo ao sentimento de culpa, se enforcou antes mesmo do julgamento. A história que circula em Ouro Preto é diferente. Por tradição, a igreja nunca toca os sinos aos suicidas. Na morte de Cláudio Manuel, ouviram-se várias badaladas, indicando que o suicídio poderia ser, na verdade, assassinato.
Já Tomás Antônio Gonzaga teve um destino mais feliz. Ficou preso no Rio de Janeiro de 1789 até 1792, quando foi exilado para Moçambique. Lá se casou, enriqueceu e se envolveu com a política local. Nos versos, todo o amor que sentia por Marília foi substituído pela saudade por conta da distância.
A Inconfidência Mineira como inspiração
Não foram apenas os poetas árcades que viveram o clima da insurreição. Uma das obras mais célebres da poetisa moderna Cecília Meireles homenageia os inconfidentes. Na coletânea de poemas Romanceiro da Inconfidência, Cecília conta a história de Minas desde o início da exploração do ouro até culminar na Inconfidência Mineira.
No trecho abaixo, retirado do Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência, a poetisa fala sobre a bandeira da Inconfidência, que posteriormente inspirou a de Minas Gerais.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobre, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Quem também usou a bandeira dos inconfidentes para falar sobre a insurreição foi Vinícius de Moraes, em Pátria Minha.
Pátria minha… a minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
*As polêmicas envolvendo a Inconfidência
Hoje, o que se estuda a respeito da Inconfidência Mineira refuta alguns mitos que cercaram a insurreição. No século XVIII, não havia uma identidade nacional que unisse os brasileiros. Os inconfidentes, então, não lutavam para que todo o país se tornasse independente, mas sim Minas Gerais.
Os escravos também eram um ponto de conflito. Como muitos dos participantes do movimento possuíam mão-de-obra escrava, eles preferiam que a liberdade destes fosse tardia. Mas em uma coisa eles concordavam: na instalação de uma República em Minas, baseada nos ideais iluministas vindos da França e da recente independência dos Estados Unidos.
Outro que não aparenta o que realmente era é Tiradentes. Esqueça as imagens de um Tiradentes cabeludo e com barba, semelhante a Jesus Cristo. Sabe-se que, por sua carreira militar, Tiradentes nunca poderia ter cabelos e barba compridos. Além disso, era padrão que todos os presos tivessem os pelos raspados para evitar a proliferação de piolhos.
- Com informações do Conversa de Português, Portal Educar Brasil e os livros As várias faces da Inconfidência, de Julio José Chiavenato e Literatura Brasileira, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães
- Imagem de destaque retirada deste Flickr.

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