Novos Caminhas

Escrito por . Postado em Curiosidades

22 de April de 2012

Em 22 de abril de 1500, embarcações vindas de Portugal ancoravam em um território jamais visto pelos povos europeus. Chamaram de “descoberta” a ocupação de um espaço já habitado e trataram de mandar notícias à Corte sobre a nova terra que mais tarde se chamaria Brasil.

O encarregado desse relato foi Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral. O texto, embora com função claramente jurídica, de demarcação do novo território descoberto, também é considerado um dos marcos da literatura de viagens que despontava em Portugal numa época em que a Europa se deslumbrava com as novidades descortinadas pelos avanços da navegação.

“Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia parma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

As gentes desta terra, salvas ou não, passaram a produzir seus próprios textos. E alguns fizeram, inclusive, releituras do documento escrito há tanto tempo. É o caso do escritor mineiro Murilo Mendes, que falou de forma irônica sobre a descoberta do Brasil no poema Carta de Pero Vaz, de 1932.

A carta também foi matéria-prima para a releitura do escritor modernista Oswald de Andrade, que denunciava no Manifesto Antropofágico de 1922: “Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. É dele também o poema Pero Vaz de Caminha, de 1925:

a descoberta

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra

os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

primeiro chá

Depois de dançarem
Diego Dias
Fez o salto real

as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha

A Carta de Pero Vaz de Caminha pode ser lida na íntegra aqui.

Relacionados

No Comments

There are currently no comments on Novos Caminhas. Perhaps you would like to add one of your own?

Leave a Comment