Certa vez ligaram para Dona Leonor:
- Vou matar você e seu filho.
- Por quê, senhor?
- Porque sou peronista.
- Bom, meu filho sai todos os dias às dez da manhã. É só esperar e matá-lo. E quanto a mim, aconselho a não perder tempo falando ao telefone. Se não se apressar, eu morro.
O misterioso do outro lado da linha não fez questão de correr. Nem ela – que morreu espontaneamente mais de dez anos depois, às vésperas do seu centenário. O filho de Dona Leonor, Jorge Luís Borges, também escapou ileso da ameaça.
Se o presidente Juan Perón era alvo de ódio, a mãe foi amor para toda vida do escritor argentino. A cegueira, maldição de família, obrigou Jorge e Leonor a partilharem a velhice. Passou a depender dela ainda na meia idade, quanto a vista começou a falhar. A velha senhora escrevia os versos criados pelo filho. Mas Leonor continuava a ditar as regras.
O poeta era um sujeito complexo, ambíguo, sinuoso. Quem não arrisca pela ficção, tenta desvendá-lo na psicanálise: entre o pai anarquista e a mãe autoritária. Mesmo morta, Leonor o seguiu até o final.
Borges terminou cansado, solitário, imerso na escuridão. Os olhos eram só dois espelhos pra dentro do labirinto.
Confira a última entrevista dada pelo autor à jornalista Gloria López Lecube, poucos dias antes dele morrer. Os fragmentos foram resgatados por Carlos Polimeni para a rádio Del Plata.
Entrevista retirada de Fortunaweb. Imagens de reprodução.
Mais sobre Jorge Luis Borges aqui, aqui, aqui.e aqui.


No Comments
There are currently no comments on [Última entrevista] Jorge Luís Borges. Perhaps you would like to add one of your own?