Encontros e desencontros entre Cecília e Fernando

Encontros e desencontros entre Cecília e FernandoDylan Luder / unsplash

Numa noite de 1934, no café A Brasileira, em Lisboa, Cecília esperava por alguém que não viria. Depois de duas horas, resolveu ir embora, desapontada. Ao retornar ao hotel onde estava hospedada, um embrulho esperava por ela. Na folha de rosto do recém publicado livro Mensagens, havia uma dedicatória:

A Cecília Meyreles, alto poeta,
e a Correia Dias, artista, velho amigo e até cúmplice na invocação da Apolo e Atena,

Fernando Pessoa
10-XII-34.

O encontro que jamais aconteceu entre Fernando Pessoa e Cecília Meireles naquela noite de 1934 já foi alvo de muitas especulações. Cecília estava em Lisboa para dar palestras quando propôs o encontro. Queria conhecer o poeta, de quem seu marido, um outro Fernando, era amigo.

As razões para que Pessoa tenha dado o bolo em Cecília Meireles nunca foram esclarecidas. Depois da morte de Cecília, Heitor Grilo, seu segundo marido, difundiu a versão de que Fernando Pessoa não foi porque o seu horóscopo apontava que aquele dia não era favorável a encontros. E nenhum outro o foi. Pessoa morreu um ano depois, sem jamais ter conhecido a poetisa brasileira.

Mesmo sem nunca ter tido contato com Pessoa, Cecília acreditava na proximidade entre eles:

“Eu creio bem que intimamente nos pareçamos, como se parecem as pessoas de origem comum. Não só descendemos ambos de açorianos, o que é uma psicologia especialíssima, como tivemos ambos grandes mergulhos na literatura inglesa. Ele até escreveu em inglês. E esses mergulhos já vinham, a meu ver, tanto nele como em mim, por uma necessidade que se poderia chamar talvez de ‘insular’ – um sentido de separação, de ausência, de mar em redor… E por todos esses motivos, você sabe que os açorianos, os irlandeses, os celtas são criaturas tão de sonho que estar acordado já é um grande sacrifício… Tanto ele como eu nos aproximamos de investigações místicas e mágicas do mundo. Ele chegou mesmo a ser astrólogo de renome, segundo ouvi dizer. Eu, apenas fiquei pasmada diante das feitiçarias do mundo”.

As aproximações entre a brasileira e do português também foram alvo de estudo. No artigo Fernando Pessoa e Cecília Meireles: o encontro entre poesia e criança, a pesquisadora da Universidade Estadual de Maringá, Alice Áurea Penteado Martha, observou a qualidade estética da poesia infantil escrita por Fernando e Cecília. Segundo Áurea, eles “souberam, ao dirigir-se à criança, como revitalizar a palavra poética, concedendo-lhe tratamento mágico, sem desrespeitar-lhe o estatuto artístico”. Para ela, a herança cultural açoriana, comum aos dois, pode ajudar a compreender as imagens de infância presentes dos poemas dos autores.

Para o desapontamento de Cecília, atualmente Fernando Pessoa bate ponto no café A Brasileira todos os dias e fica sentadinho, sempre no mesmo lugar.

Inspirado e com informações do texto de Eustáquio Gomes, publicado na Amálgama.

Imagem retirada daqui.

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques