Maurice Sendak e arte de contar histórias

Jessica Soares | Pra Ler

Já foi chamado de “o homem mais poderoso dos Estados Unidos”. Não ostentava tal título por riqueza, influência política ou super-força. Seu poder residia em algo simples: a incomparável capacidade de dar vida à imaginação de milhões de crianças. Um grande poder, uma grande responsabilidade – e Maurice Sendak sempre deu conta do recado. O autor, que dedicou a vida à escrita de livros infantis, era letrado na arte de contar uma história com imagens. Aos 83 anos, se despede do mundo deixando órfãs milhões de crianças de ontem e anteontem. O autor sofreu um derrame e faleceu na manhã do dia 8 de maio.

Nascido em 10 de junho de 1928, em uma mesa de jantar no Brooklyn, no distrito de Nova York, nos EUA, Maurice é o terceiro filho de Philip e Sarah Sendak – seus irmãos, Natalie e Jack, vieram da mesma maneira inusitada à família disfuncional. Desde muito cedo, a morte e a solidão foram uma constante em sua vida: entre a relação conflituosa com os pais e a morte de parentes, vítimas do Holocausto, Sendak se acostumou a buscar refúgio em seus desenhos e palavras. Quando não estava na escola – que detestava – ou no cinema, passava o dia olhando o movimento da rua e desenhando. Não por acaso, seu primeiro livro, Kenny’s window, publicado em 1956, tem como personagem um garotinho que se perde em pensamentos e questionamentos sonhadores enquanto olha pela janela. Seja em mundos habitados por criaturas assustadoras, ou uma padaria imaginária em que um bolo deve ser confeitado até o nascer do sol, o conjunto de obras de Sendak compõe não apenas um universo rico em imagens e histórias, mas também uma autobiografia.

Sua primeira obra publicada foi uma ilustração na publicação escrita por seu professor de física, Atomics for the Millions, de 1947. Desde então, foram mais de 100 livros ilustrados e mais de 20 obras assinadas por ele. A mais conhecida é Onde Vivem os Monstros. No livro, publicado originalmente em 1963, Max, um garoto em pele de lobo (uma fantasia, na verdade), é mandado para a cama sem jantar depois de uma malcriação. Seu quarto lentamente se transforma em uma floresta, banhada pelo mar. Ele navega por mais de um ano até chegar na terra onde vivem os monstros – que são criaturas igualmente insubordinadas. Um olhar rígido de Max faz com que elas o nomeiem seu rei. Lidera uma bagunça geral e segue seu reinado, até que, se sentindo solitário (e com fome), resolve navegar de volta para seu quarto, onde encontra o jantar à sua espera.

Mais que uma história infantil, o livro explora as próprias preocupações e visões que Sendak tinha quanto à sua própria infância e à fragilidade das crianças. Não que haja a tentativa de “protegê-las” da realidade: sempre acreditou que morte e tristeza eram entendidas por elas e, por isso, esses sentimentos sempre fizeram parte de seus livros. A maioria de suas narrativas é centrada nos pequenos em perigo, que usam como arma a imaginação – como ele mesmo costumava fazer. Não guarda rancor dessa época, no entanto. “Se eu tivesse uma mãe de verdade e ela me fizesse feliz, se meu pai se preocupasse com minha felicidade, eu estaria trabalhando em uma loja de computadores junto com o Max”, disse em uma conversa com a jornalista Cynthia Zarin, da New Yorker, em 2006.

Nas últimas duas décadas, se aventurou também nos palcos. Em uma parceria de mais de 15 anos com o diretor de óperas Frank Corsaro, colaborou na produção de A Flauta Mágica, de Mozart, e de uma versão em ópera para Onde Vivem os MonstrosMommy?, primeiro livro pop-up de Maurice, lançado em 2006, foi transformado em teatro no Night Kitchen Theatre. Entre as aventuras diversas, tentou também a ilustração  de livros adultos, como Pierre, de Herman Melville, e Pentesiléia, clássico homoerótico de Heinrich von Kleist.

Ao longo dos anos não faltaram propostas e interessados em levar Onde Vivem os Monstros também para o cinema. Mas apenas Spike Jonze e Dave Eggers passaram no teste – foram os únicos que mostraram um pouco de “imaginação”, Sendak afirmou. Conseguiram levar para as telas a adaptação, no longa lançado em 2009. Do processo de produção e convivência com o autor, Jonze diz ter compreendido uma coisa sobre Maurice: “por mais sábio que seja, Sendak é uma criança”. E, como qualquer criança, era um pouco triste, irritado e, quando estava bravo, queria morder de volta. Mas no fim, tudo que parecia desejar era chegar em casa e encontrar o jantar esperando por ele

ainda quentinho.


Com informações do perfil do autor na New Yorker.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.