[Bienal do Livro de Minas] As lembranças de Zuenir e Mary

[Bienal do Livro de Minas] As lembranças de Zuenir e MaryBrandon Redfern / reprodução

Corre por aí o boato de que o brasileiro é um povo sem memória. Conversa antiga, que ninguém se lembra como começou. Se a história (curiosamente) comprova que há um fundo de verdade por trás dessa crença, o Café Literário desta terça-feira mostrou que pelo menos uma dupla não esquece facilmente. No 5º dia da Bienal do Livro de Minas, o jornalista e escritor Zuenir Ventura e a historiadora e escritora Mary del Priore sentaram-se para uma conversa sobre Jornalismo e Memória.

Mediado pela também escritora Cristiana Agostinho, o bate-papo logo abordou os diferentes tempos que a história e o jornalismo evocam: se antes havia a divisão muito clara quanto ao que era território de um ou do outro, esses limites hoje são constantemente tensionados. “O jornalismo hoje também faz história”, argumenta Zuenir citando Lucas Figueiredo, autor de livros-reportagens como Olho por Olho e O Operador. Mary, que em seus livros mergulha de cabeça na história e na apuração detalhada, faz coro ao argumento e comemora a “invisibilidade” das fronteiras: “hoje quem define o que é história é muito mais o público do que a universidade”, diz.

A escritora comemora também uma especificidade de seu trabalho: lidar menos com os vivos. Passa grande parte do tempo visitando seus personagens apenas nos arquivos – “é lá que você conversa com os mortos”. Do bate-papo empoeirado, escolhe os personagens que menos se assemelhem a heróis e que mais se aproximem da realidade. Ela gosta é de gente como a gente, e não faz cerimônia para reclamar das famílias que insistem em proteger a honra dos finados. Contou já ter sofrido ao cortar diversos parágrafos e páginas de histórias interessantes por censura de parentes que preferem levar para o túmulo as indiscrições. Para se vingar por cada palavra perdida, aproveitou a reunião para contar uma fofoca: Dom Pedro II era banguela – e essa você pode espalhar para todo mundo, sem medo de processo.

Por mais que os vivos sejam realmente um tanto inconvenientes, Zuenir, como bom jornalista que é, não abre mão de encarar, corpo a corpo, a realidade. Nela, ele diz querer sempre se encharcar – escrever significa mergulhar na história. Sua formação tradicional em jornalismo, no entanto, lhe alertava para o perigo de se afogar. O jornalista não deveria interferir no acontecimento, apenas relatá-lo, como dita o manual. “E aí um dia eu trouxe o acontecimento para casa”, brinca Zuenir, relembrando a experiência intensa que teve ao escrever a série de reportagens O Acre de Chico Mendes. Na ocasião, além de voltar do Rio Branco com o material para redigir as matérias que lhe renderiam o Prêmio Esso de Jornalismo, trouxe consigo o menino Genésio, principal testemunha do caso Chico Mendes, que decidiu proteger.

Intervir ou não na realidade continuou sendo alvo de tensão: acusaram-lhe de, em 1968 – O Ano que não terminou, misturar realidade e ficção por apresentar na obra um narrador onisciente. Se defende dizendo que foi apenas uma opção. Ali, julgava mais importante dar a voz aos personagens, e se valeu para isso do discurso literário. Em outras obras, não hesita em admitir: interferiu o tempo todo porque sua presença no espaço era importante para a narrativa. Mas, mesmo em suas ficções, afirma não dizer inverdades: “só 10% é mentira, o resto é invenção”, como já dizia Manoel de Barros. “Às vezes a realidade é muito mais inverossímil que a ficção”, brinca o escritor. Todos riram – mas acreditaram.

Até o dia 27, o Café Literário da Bienal do Livro de Minas continua recebendo convidados para bate-papos especiais. Acompanhe a cobertura da Bienal do Livro de Minas pelo Pra Ler e fique por dentro de tudo que acontece no evento.

Fotos: Divulgação

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.