[Bienal do Livro de Minas] O encontro de Frei Betto e Luiz Rufatto

[Bienal do Livro de Minas] O encontro de Frei Betto e Luiz RufattoBrandon Redfern / reprodução

Dois escritores mineiros resolveram se aventurar pelas gélidas e cinzas ruas de São Paulo. Por coincidência, dividem a mesmíssima rua, um de frente pro outro. Por ironia do destino (ou do tempo sempre corrido da capital paulista), poucas vezes se esbarram. E não é que o encontro dos dois que há muito não acontecia se deu em terras mineiras? Frei Betto e Luiz Rufatto dividiram o mesmo palco do Café Literário durante o Bienal do Livro de Minas, no dia 23 de maio, para falarem sobre a construção do romance.

A conversa foi mediada pelo também escritor Luis Giffoni e os três não esconderam a satisfação de estarem juntos ali. Mas quem saiu contente mesmo foi a plateia, que pôde ver de perto um Frei Betto bem humorado, falante e tecendo elogios ao tímido Luiz Rufatto. Ambos falaram de suas criações literárias – os dois já receberam prêmios pelas obras que publicaram. A mais famosa de Frei Betto é Batismo de Sangue, que conta a trajetória de Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional assassinado em 1969. O livro foi adaptado para os cinemas em 2007. Já Eles eram muitos cavalos, de Ruffato, retrata a vida de São Paulo em 70 capítulos.

O começo

Conhecido pela veia política, Frei Betto diz que se tornou escritor na cadeia, onde passou dois anos durante a ditadura militar. “Escritores existem muitos, difícil é ser autor. E eu me tornei autor graças aos generais brasileiros. Escrevi muitas cartas na prisão”. As cartas viraram o livro Cartas da prisão. Nessa multidão de escritores lançando livros por aí, Frei Betto indica um que se destaca e deixa de ser mais do mesmo: Luiz Ruffato. “O difícil no romance é criar um contexto e inovar na linguagem, e linguagem é o que Rufatto mais explora em suas obras”. Frei Betto arrancou risos da plateia e deixou o colega ao lado, ao mesmo tempo, sem graça e emocionado ao falar que tem inveja desse talento de Ruffato.

“Não era pra eu ser escritor. Era pra eu estar aposentado, comecei a trabalhar muito jovem. Me tornei escritor porque comecei a ler muito cedo”. Realmente se formos olhar para o passado de Ruffato, não é difícil se perguntar como é que ele foi parar na literatura. Ele já foi de tudo nessa vida, de torneiro-mecânico a balconista, passando por pipoqueiro e jornalista. E é exatamente desses personagens urbanos e de classe média baixa que ele sentiu falta nos primeiros livros que leu e resolveu retratar nos que escreveu.

As dicas

Da plateia, surgiu o pedido de conselhos para os novos escritores. Luiz Rufatto e Frei Betto foram simples e diretos: Para ser escritor, antes de tudo tem que ser leitor. Passada essa fase, antes de começar a enviar o livro para editoras e concursos literários, a sugestão é pedir para outras pessoas lerem e opinarem. E, é claro, o próprio autor ler e reler quantas vezes forem necessárias. “A melhor coisa é quando o romance está pronto e a gente começa a maquiá-lo, dar um sabor estilístico à linguagem”, conta Frei Betto.

Fotos: Divulgação