[Bienal do Livro de Minas] Eliane Brum e Juan Pablo Villalobos entre a realidade e ficção

[Bienal do Livro de Minas] Eliane Brum e Juan Pablo Villalobos entre a realidade e ficçãoBrandon Redfern / reprodução

Vieram de extremos aparentemente opostos – ela dos “fatos”, ele dos “contos”. Os passos que trilharam lhes levaram a se encontrar no meio de um caminho que já tinha muitas estradas em comum. No Café Literário desta sexta-feira, dia 25, Eliane Brum e Juan Pablo Villalobos se sentaram para um bate papo sobre Reportagem e Ficção em que discutiram o escrever, o pensar e o sentir.

Eliane é jornalista há quase 25 anos, mas talvez o que melhor defina seu trabalho é o fato de ser “escutadeira” desde a infância. Entre reportagens, romances e documentários que já assinou, está a busca constante por contar as histórias que lhe preenchem. Porque, para ela, o jornalismo é um movimento de esvaziamento – é preciso se livrar de pré-conceitos e pré-supostos para se deixar ser possuído pela voz do outro. “Na ficção, o movimento é semelhante, mas se deixa ser possuído pela própria voz também. Descobri fazendo ficção que não há nada mais aterrorizante do que ser possuído por si mesmo”, contou a autora que lançou em 2011 Uma, Duas, seu primeiro livro de ficção.

Para o mexicano Juan Pablo Villalobos o medo vem do movimento contrário. “Fico muito assustado quando tenho que escrever uma história que não sai de mim”, diz. O romancista, que mora no Brasil há pouco mais de 8 meses, começou a se aventurar também pelo mundo das crônicas de viagens e perfis, nos quais diz nunca conseguir chegar à “objetividade”. Eliane levanta o microfone como se levantasse um estandarte e questiona esse ideal impossível do jornalismo – para ela, a objetividade é inalcançável. Somos seres históricos, destaca, e isso transparece nos textos.

Além disso, há a incontornável presença física – como humanos que somos, carregamos pra lá e pra cá nosso corpo de carne e osso, que interfere no ambiente e no outro. Ter consciência disso é importante para o fazer e para o processo de esvaziamento que julga tão importante.

Para a escutadeira, há uma vontade também de colocar em palavras o que está além do “fato”. Seria o tal do jornalismo literário? Ela não gosta do termo, mas entende estar ligado ao reconhecimento de um jornalismo menos redutor. “O bom jornalista sabe que o silêncio fala, que a realidade é muito complexa”, diz. A voz, as texturas, as palavras escolhidas, a linguagem – nada é fruto do acaso. Para Eliane, tudo isso faz parte da realidade do outro, e faz questão de deixá-los transparecer em seus textos. “Conheci analfabetos que faziam literatura pela boca”, conta, e deixa clara sua esperança de que um dia possam também fazê-las com palavras.

Na ficção, a busca pela voz do outro é também incansável. Mesmo imaginados, personagens têm vozes – e como falam! Às vezes, achar o tom é um desafio. Villalobos conta que encontrar o tom para seu livro Festa no Covil foi difícil. Tudo pareceu encaixar quando, de repente, lhe veio a primeira frase: “Algumas pessoas dizem que sou precoce”, diria o menino-narrador. Só aí conseguiu finalizar a primeira versão do livro. Daí, veio a fase de ajustes: foram dois anos editando o livro de pouco mais de 70 páginas.

O zelo com as vozes – sejam de pessoas feitas de palavras ou daquelas feitas de poesia viva – é uma preocupação também para Eliane, que às vezes se depara com uma realidade cruel: no jornalismo não há reparação. Para a autora, se fala muito pouco dos muitos erros na imprensa, e se inclui na roda. Ela, que sofre por ter revelado uma história muito delicada de um de seus entrevistados em uma reportagem, buscou a redenção em O olho da rua, livro em que revisita e faz revisão de seu trabalho. Eliane se questiona, e questiona o mundo frequentemente. Foi ao fazer uma série de reportagens sobre a morte e enfrentar seus próprios medos e anseios em relação ao tema que percebeu uma limitação. A voz falha, mas diz enfim: “há certas realidades que só a ficção consegue tratar”.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.