[Em off] Encontros com Sabino

[Em off] Encontros com SabinoMaciej Korsan / reprodução

O mineiro Fernando Sabino tinha um sonho: queria voltar a ser menino. Se por mera tecnicalidade não era possível rejuvenescer, conseguiu eternizar em palavras sua meninice. Seus textos, cheios de frescor, voltam a ser visitados pelos pequenos da vez na exposição itinerante Encontro Marcado com Fernando Sabino, organizada pelo filho do escritor, Bernardo Sabino.

O produtor cultural conversou com o Pra Ler e contou um pouco sobre o projeto e sobre o dia a dia do grande escritor brasileiro que ele chamava de pai. Confira abaixo o bate papo de Júlia Marques com Bernardo Sabino.

Qual é a proposta do projeto Encontro Marcado com Fernando Sabino?

Na verdade, a proposta foi tomando corpo com o passar do tempo. Quando iniciei o projeto em 2005 não tinha noção de onde eu ia chegar. A gente fez uma exposição de 2 mil metros quadrados no Palácio das Artes em 2007 e a minha ideia era rodar com essa exposição pelo Brasil.

Acontece que, no caminho, uma cidade do interior de Minas, Muriaé, me procurou para levar essa exposição pra lá e era completamente inviável pelo custo, pela logística, levar pra lá essa exposição que estava no Palácio das Artes. Eu adaptei uma exposição de painéis, fotos e vídeos para Muriaé e, pra minha grande surpresa, eles fizeram todo um trabalho junto aos colégios lá na cidade.

Os meninos, através da leitura dos livros, produziram peças de teatro, artes plásticas… A partir daquele dia eu decidi me dedicar a esse formato de exposição. Em 2008, nós percorremos dez cidades do interior de Minas e São Paulo e de lá pra cá ela vem a cada ano ganhando uma nova edição.

Estamos na quarta edição do projeto e hoje a exposição é bem ampla e tem todo um trabalho educativo que é feito junto à Secretaria de Educação nas cidades por onde passa.

Como é a exposição? O que ela mostra e quais aspectos da vida do Sabino essa exposição traz?

São dois momentos. O primeiro é o contato com a Secretaria de Educação onde hoje nós temos uma coordenação pedagógica ligada ao projeto, que desenvolve, conforme as características de cada cidade, trabalhos junto às crianças. A obra de Fernando Sabino permite leituras de todas as faixas etárias, você atinge o menino desde o fundamental até o ensino universitário.

Nós desenvolvemos atividades, workshops junto aos professores locais os habilitando a trabalhar o Fernando Sabino em sala de aula. A gente leva projetor de filmes, revistas, tem também uma mostra de filmes que viaja junto… Quando a minha exposição chega, é somada ao que foi produzido pelos alunos em sala de aula. O que é plástico se junta a nossa exposição e o que é cênico a gente programa a abertura em outras datas durante a exposição no local.

Como é a recepção nas cidades por onde a exposição passa? Como os alunos recebem toda essa movimentação em torno da obra do Fernando Sabino?

Muito além das expectativas. Primeiro que eles espelham em mim a figura do meu pai – eu faço visitações nas escolas. Recentemente, em Uberaba, eu visitei dezenove escolas. Tinha escola com mil e quinhentos alunos no pátio me esperando, gritando por mim, me agarrando, me abraçando como se eu fosse um ídolo.

Eu acho que o principal objetivo do projeto, que é tornar a leitura uma coisa prazerosa, é atingido completamente. Os meninos leem para fazer uma peça de teatro, uma dança, pra fazer uma pintura, pra fazer uma reciclagem de lixo. Esse primeiro objetivo é 100% atingido.

O segundo objetivo é mostrar pra criança que leitura é fundamental para se produzir outra forma de arte e que existe um caminho profissional a ser seguido na área de cultura, não só como escritor, mas como qualquer outro segmento de arte. Esse segundo objetivo também é bem atingido.

E o mais bacana é que há o interesse pela leitura pelos alunos, uma coisa que eu achava que não haveria. Talvez pela obra do meu pai ter essa empatia com os alunos, temas que eles vivem no dia a dia deles, temas engraçados. Talvez pela maneira do professor trabalhar. É muito importante a figura do professor, que lida direto com o aluno. Toda a equipe é importante, mas principalmente o professor que tem contato direto com os alunos. Eles trabalham com tanto carinho a obra do meu pai, e isso é muito gratificante pra mim.

Por quantas cidades a exposição já passou?

Já foram 38 cidades.

Todas mineiras?

Não, passamos também por 10 cidades de São Paulo e pelo Rio de Janeiro. Estivemos em Miami também, nos Estados Unidos, em uma feira de livros. Lá também foi feito um trabalho em uma escola de língua portuguesa.

E quais são as perspectivas para 2012, quantas cidades estão previstas?

A nossa tentativa é sempre evoluir.  Estamos terminando a quarta etapa do projeto, Uberaba é a última cidade. Foi um trabalho maravilhoso. E na próxima edição nós planejamos ter um trem – seria o “Vagão Cultural”. O vagão ficaria em cada cidade um mês, fazendo mostras de audiovisual dentro dele, e a exposição ficaria no entorno. Provavelmente vamos começar por Pirapora, vamos a Corinto e Além Paraíba – isso já está definido para o segundo semestre. Deveremos ter na Praça da Estação uma exposição em outubro. Ano que vem serão os 90 anos do Sabino, então estamos montando um projeto grande pro Circuito Cultural da Praça da Liberdade.

Como era a relação com o seu pai? Como a literatura estava presente na sua casa?

É muito difícil essa pergunta. Mexe muito com a emoção quando eu começo a falar do meu pai. Era uma relação de pai para filho, filho para pai. Até os 8, 9 anos eu não tinha percebido a importância dele na literatura brasileira. Eu não escolhi ser filho de um escritor famoso, aconteceu. Quando eu tinha essa idade percebi que eu era conhecido como o filho do Fernando Sabino, comecei a ler seus livros na escola.

Mas a relação com ele nunca foi de escritor para filho, ele sempre soube separar muito bem, apesar de nos indicar livros para ler, e de contar muitas histórias da vida dele. Ele tinha uma cadeira de balanço, e sempre puxava a gente, sentava no colo e ficava contando histórias. E isso construiu a uma lembrança muito terna. Uma vez encontrei uma foto minha na cadeira de balanço, logo depois de ter escutado uma história… Era uma relação muito amistosa. Ele era uma pessoa muito simples. Era um exemplo de cidadão, tentando ensinar a gente a construir um mundo melhor. Essa lembrança, de honestidade, de amor ao próximo, é uma coisa que marcou muito a gente. Somos sete filhos e isso influenciou muito nossa vida.

Como era o processo de escrita do Fernando Sabino? Vocês acompanhavam de alguma forma a produção dos textos?

A criatividade do artista é muito individual. Mas ele era disciplinado. Ele ficava das 14h às 20h em frente ao papel mesmo que não escrevesse nada. Ele era muito disciplinado, principalmente na época em que ele escrevia crônicas e dependia disso pra sobreviver, como a maioria dos autores. Era o processo dele. Mas às vezes ele ligava pra gente para tirar uma dúvida. De vez em quando ele empacava numa palavra e ligava para gente, para saber como sair dessa.

Acompanhar um pouco dos bastidores da produção interfere na sua leitura das obras?

Eu releio coisas deles e vejo que ele escreveu muitas coisas para crianças. A gente está pegando as crônicas e fazendo revistas, que distribuímos gratuitamente. E comecei a reparar como ele escreveu para o público infanto-juvenil. Ele sempre falava como ele queria voltar a ser menino. E ele conseguiu, né? Ele vai se tornando menino na cabeça das crianças. É muito emocionante e muito gratificante a gente poder fazer esse trabalho.

O que mais inspirava o Fernando Sabino na hora de escrever crônicas?

As crônicas eram muito fatos do dia a dia. A “A última crônica” foi uma história que aconteceu de verdade com ele. Ele foi a um bar, chegou mais cedo pra um encontro, e viu entrar um casal de negros com a filhinha, toda enfeitada. O casal contou o dinheirinho, pediu uma coca-cola e um pedaço de bolo e cantou parabéns para a menina ali. Essa crônica está entre as 50 melhores das crônicas nacionais por vários críticos. Eram fatos do dia a dia. Ele estava sempre buscando o assunto na rua. Estava sempre atento a tudo, por mais simples que fosse, um detalhezinho. Mesmo os assuntos mais simples ele conseguia transformar em uma crônica sensacional.

Caricatura, de Cavalcante, retirada daqui.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.