Guerra entre irmãos em nome da pátria

Guerra entre irmãos em nome da pátriaDylan Luder / unsplash

O ano era 1945. No Brasil se formava o que viria a ser a maior comunidade de imigrantes japoneses do mundo. Fora das fronteiras brasileiras, o imperador do Japão, Hiroshito, assinava o tratado de rendição ao general americano Douglas MacArthur. Dentre os 200 mil imigrantes japoneses que estavam então espalhados por cidades do oeste paulista e Paraná, 80% acreditavam que seu país ainda venceria a guerra e que as notícias da rendição eram mentiras contadas para enfraquecer a fé do povo nipônico.

Entre eles estava Takahashi, dono de uma loja de fotografias e casado com Myiuki, uma professora primária. O homem comum se transformou num assassino ao se juntar ao grupo de kachigumi, os “vitoristas”, que viam aqueles que acreditavam na derrota do Império do Japão como traidores da pátria, como “corações sujos”.

A realidade se mistura com a ficção no filme de Vicente Amorim, inspirado na obra de Fernando de Morais, Corações Sujos. Takahashi não existiu de verdade, mas sua história está contada nas páginas do livro-reportagem que investigou a guerra fraticida que matou dezenas japoneses e levou mais de 30 mil imigrantes para a cadeia. O interior de São Paulo foi o principal palco dessa luta sangrenta, abafada ao logo dos anos. Segundo Fernando Morais, autor de Chatô, o Rei do Brasil e Olga, Corações Sujos foi a obra foi a mais de difícil de ser apurada. Ninguém queria contar essa história, muito menos a um gaijin, um estrangeiro.

Nos mais de cinco anos de pesquisa, o autor buscou saber não só sobre as prisões, as mortes e os ataques, mas também o que fez com que imigrantes japoneses matassem e morressem em nome do Império do Japão. Entre suas descobertas, está a Shindo Renmei ou “Liga do Caminho dos Súditos”, uma organização que nasceu nacionalista, em 1945, e se tornou política, instigando a violência e manipulando informações. Corações Sujos, publicado em 2000 pela Companhia das Letras, foi reconhecido com o Prêmio Jabuti de Não-ficção de 2001. O filme está previsto para estreiar no Brasil em agosto deste ano.

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.