As cartas de Carlos e Cyro

As cartas de Carlos e CyroRedd Angelo / unsplash

55 anos e 163 textos. Entre 1931 e 1986, os escritores mineiros Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade trocaram cartas, bilhetes, telegramas e radiogramas em que compartilhavam confissões pessoais e literárias. Drummond e Cyro se conheceram nos anos 1920, em Belo Horizonte. Ambos vinham do interior do estado: Drummond de Itabira e Cyro de Montes Claros. Criaram um laço afetivo que durou até 1987, data da morte do poeta de ferro. Todas as intimidades gravadas nas correspondências estão reunidas no livro Cyro & Drummond, que será lançado nesta edição da Festa Literária Internacional de Paraty.

A compilação de correspondências apresenta algumas críticas do itabirano em relação a outros escritores e confissões sobre suas simpatias e antipatias literárias.    “Estou verificando em mim, com estupor, a tendência para meter o pau no próximo, quando já a madureza me parecia soprar auras mais benévolas”, dizia Drummond em uma de suas cartas, de 1954.

De fato. Não foi com muita benevolência que ele comentou com o amigo sobre a peça Lampião, publicada em 1953 por Rachel de Queiroz, e sobre o romance Cangaceiros, de José Lins do Rego. “O arraial das Letras anda muito alvoroçado com os últimos produtos do engenho nordestino, que são uma tragédia da Raquel, onde os personagens se matam a metralhadora em cena aberta, e o romance do Zé Lins, que teve a habilidade de descobrir novos palavrões, ou acepções novas dos antigos, para ornamentar a sua prosa tão límpida (a publicação no Cruzeiro sairá expurgada)”, escreveu.

O hábito de escrever correspondências para trocar ideias sobre literatura, “meter o pau”, elogiar ou fazer confidências não é exclusividade de Cyro e Drummond. Monteiro Lobato se correspondeu com o escritor Godofredo Rangel por 40 anos e Clarice Lispector e Fernando Sabino contaram as novidades por meio de correspondências por duas décadas. O mineiro também recebeu cartas motivadoras de Mário de Andrade quando ainda era muito jovem. As correspondências duraram até a morte de Mário, em 1945. 

Imagem: Acervo Casa Ruy Barbosa

Vimos no Estadão.
Com informações daqui.

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques