Bibliografia desenhada

Bibliografia desenhadakaboompics / reprodução

Como boa filha de pais donos de uma livraria, Angelika Taschen é apaixonada por literatura. O amor que cultiva desde a infância fez com que bio e bibliografia fossem inseparáveis. “Eu sempre soube que minha vida nunca seria entediante enquanto houvesse livros ao meu redor para me inspirar”, disse a alemã. E pode-se dizer que ela estava certa. Além de tornar o hobby profissão – Taschen é hoje editora de livros – fez com que eles fossem também transportados para os traços do desenhista estadunidense Joe McKendry.

O artista foi o responsável por transformar a lista de livros favoritos de Angelika em imagens que lembram a estética dos quadrinhos. Cheio de imaginação, McKendry ambientou as obras nos locais onde foram lidos originalmente pela alemã, transformando os registros em um tipo de diário visual de suas inspirações e memórias. Confira abaixo a bio-bibliografia de Taschen e seus comentários sobre as obras:

Tristan, de Gottfried von Strassburg
“Este é um dos pontos altos de minha vida. Aconteceu há algum tempo, quando minha filha nasceu e nós fomos acampar em algum lugar na Inglaterra. Eu estava estudando literatura alemã. [O livro] É escrito em alemão medieval. Eu fiquei fascinada pela poesia e simplicidade. É preciso talento para escrever sobre coisas complexas com palavras simples, que permitam absorver a profundidade da obra. Só consigo ler livros tristes como este em ambientes muito bonitos”.


The Drinker, de Hans Fallada
“Este é um livro sobre um alcoólatra que tinha um bom casamento e um bom negócio, mas que destrói tudo com a bebida. Ele deposita a culpa que sente em sua esposa e se torna agressivo. Provavelmente este seria o único momento, por estar em um resort dedicado justamente à saúde, em que eu poderia ler um livro tão difícil”.


Os Miseráveis, de Victor Hugo
“Eu estava em um hospital e ler esse livro, que tem mais de mil páginas, era a única maneira de escapar do tédio. Eu gosto de romances que desenvolvem grupos de personagens interligados e este livro tem um dos desenvolvimentos de personagens mais complexos e multifacetados que já experienciei. Hugo escreve sobre a condição humana, o que é atemporal”.


O Náufrago, de Thomas Bernhard
“Havia tentado ler Bernhard diversas vezes antes, mas nunca havia tido sucesso. Como acontece ao se ler James Joyce, você precisa ter certo conhecimento sobre literatura para conseguir apreciar suas obras. (…) O que gosto nesse livro é que ele demonstra a diferença entre genialidade e destreza. Da primeira à última linha, não há nenhum capítulo, nenhum parágrafo – não há qualquer tipo de pausa. É bem difícil lê-lo”.


Every Man Dies Alone, de Hans Fallada
“Nós estávamos na mais bonita praia lendo sobre o mais trágico período da história da Alemanha, sobre como os nazistas criaram um sentimento de desconfiança nas pessoas e como isso as levava a fazer coisas horríveis com seus vizinhos e amigos. É um dos únicos livros que me ajudaram a entender, pelo menos um pouco, como isso era possível”


The Allure of Chanel, de Paul Morand
“Você realmente consegue se concentrar na leitura estando em um avião porque não há nada mais para se fazer. Morand encontrou Chanel diversas vezes nos anos 50 e 60 e tomou notas destes encontros. Eu tenho grande interesse por biografias e esta é sobre como ela [Coco Chanel] conseguiu ascender de um passado muito pobre e difícil e foi capaz de se tornar uma mulher muito bem sucedida”.


Cabaret – Adeus Berlim, de Christopher Isherwood
“Nesta época (…) tive uma conversa com David LaChapelle sobre o filme de Bob Fosse Cabaretque tinha Liza Minnelli no elenco – é nosso filme favorito. Depois disso decidi ler o livro original, que é completamente diferente do filme. É uma época e um lugar que realmente me interessam: a Berlim dos anos 20 e 30″.

Maria Antonieta – Retrato de um personagem central, de Stefan Zweig
“Estava de férias e eu e um amigo estávamos lendo Maria Antonieta na beirada de uma piscina. Isso foi depois do lançamento do filme de Sofia Coppola. Zweig é um mestre da psicologia – ele realmente consegue recriar o personagem. Para mim, esta é uma maneira de entender a história muito mais prazerosa do que ler livros de história, propriamente”

Vimos no Livros e afins. Com informações e depoimentos do Behance.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.