Poesia por subtração

Poesia por subtraçãoDylan Luder / unsplash

Para muitos, o poema começa na página vazia. Para Austin Kleon, ele começa nas páginas do New York Times. O trabalho do escritor, cartunista e designer de Austin, Texas, não é buscar inspiração nas notícias cotidianas para rabiscar versos e estrofes. A poesia minimalista de Kleon está em uma nova forma de ler nas entrelinhas: com um marcador, elimina das páginas as palavras de que não precisa. Da subtração de caracteres, ele soma sentidos.

A construção feita pela desconstrução começou com a combinação de um pequeno crime, bloqueio criativo e a internet. Quando sua namorada presenciou o roubo dos jornais que eram colocados nos degraus em sua empresa, convenceu o patrão a mudar o endereço de entrega para a residência do casal. Do evento aparentemente mundano, surgiu a resposta para seu bloqueio: recém formado na faculdade, Austin olhava para a página em branco do Word com horror. Se sentindo perdido e sem encontrar as palavras para dar início à sonhada carreira como escritor de contos, olhou para o lado e viu os jornais como uma oportunidade – afinal, eles já estavam cheios de letras, sentenças e frases. Sem motivo ou objetivo definidos, começou a encobrir com um marcador algumas delas.

Compartilhava seus riscados em seu blog e não demorou muito até que eles passassem a chamar a atenção. Além do retorno positivo dos leitores (que submetiam poemas feitos com a mesma técnica) o buchicho despertou o interesse de jornais e, finalmente, da editora Harper Perennial. Passados quatro anos desde o primeiro poema, em 2010 veio a publicação do livro Newspaper Blackout, que reúne todos os seus pequenos poemas fragmentados criados entre os meses de junho e dezembro de 2008. there is nothing like that first book. ‘You put your guts into it’ and hope (“não há nada como aquele primeiro livro.’Você se dedica ao máximo a ele’ e espera”) diz o poema que abre o prefácio da obra, onde relembra que tudo teve início com uma simples brincadeira. “Desde então eu passei a suspeitar dos artistas que alegavam saber exatamente o que estavam fazendo quando se sentiam inspirados. A verdade é, nas palavras de Donal Bartheme, arte tem a ver com o ‘não-saber’. É quando você está entediado e frustrado e à procura de algo divertido para fazer que as melhores ideias surgem”, afirma Austin.

Em 2012 o escritor lançou seu segundo livro e pode-se dizer que a máxima aprendida no primeiro livro voltou a acontecer. Em Steal like an artist – 10 things nobody told you about being creative (“Roube como um artista – 10 coisas que ninguém lhe contou sobre ser criativo”, em tradução livre) Austin conta um pouco sobre seu processo criativo, que, em rima temática, se baseia não apenas na subtração, mas também na soma. Para Kleon, qualquer criação é uma reunião de tudo quem admiramos. Será que ele tem razão?

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.