Juro que vi! – Boto

Juro que vi! - BotoDylan Luder / unsplash

Para continuar com a série Juro que vi!, vamos sair das matas e cair de cabeça no Rio Amazonas. O curta de hoje conta a história de uma menina que se apaixona pelo Boto, figura perigosa e tradicional da região amazônica. Antes de assistir, vamos conhecer um pouco mais sobre esse galanteador.

Boto
Se apaixonar às margens do Rio Amazonas, durante o mês de junho, é sempre um perigo. Se a pessoa estiver de chapéu, então, o perigo é triplicado. Isso porque o autor dos flertes pode não ser um homem qualquer, mas sim o Boto transformado. Seu objetivo é apenas um: sexo. Ele seduz mulheres inocentes e as leva ao fundo do rio. A consequência é uma gravidez indesejada e uma futura mãe solteira.

Dizem que o poder de sedução do Boto é incomparável. Ele sai do rio à noite e assume a forma de um homem bem apessoado, geralmente com roupa social branca, e frequenta as festas juninas atrás de vítimas. Com sua lábia, o Boto convence as mulheres a acompanhá-lo e as convida para um passeio no rio. Encantadas, elas aceitam o convite e acabam nas garras (ou nadadeiras) do conquistador.

É bem fácil descobrir se o seu novo amante é real ou não. Como a transformação do animal em humano é incompleta, basta olhar o topo da cabeça. Se ela ainda apresentar o furo respiratório característicos dos botos, é porque você está sendo enganada. Mas não pense que ele desconhece essa fraqueza. Para ludibriar as mais espertas, o Boto usa um chapéu, também branco, para esconder a imperfeição. Por isso é costume de muitas festas pedir para que os homens retirem o chapéu na entrada, só como garantia.

Ninguém sabe ao certo quando começou a lenda. O registro mais antigo data do século XVIII, mas algumas histórias associam-no à personificação de Uauiará, ou Uiara, o Senhor das Águas indígena. Assim como o Boto, o Uauiará também é um Don Juan nato. O primeiro filho de muitas índias era associado ao contato com ele, que podia surpreendê-las durante o banho de rio, na forma de boto, ou seduzi-las na forma humana. O Uauiará seria o variante masculino da Iara, a Mãe D’Água.

Por causa da lenda, o Boto é usado muitas vezes como desculpa de mulheres que engravidaram de desconhecidos ou mesmo daquelas que traíram o marido e não querem contar. Ser “filho do boto” é sinônimo de não conhecer o próprio pai.

Quem se deu bem com a lenda, na verdade, foi o próprio boto (o animal). Por causa do fascínio que ele exerce na população amazônica, comer a carne do boto se tornou um tabu dentre índios e colonizadores, o que sem dúvidas evitou uma matança ainda maior desses animais. A função do boto é de proteção, sendo responsável por cuidar das canoas nos rios e evitar os outros perigos das águas. Algumas partes do animal também são vistas como amuletos: o olho e o órgão sexual da fêmea. Alguns curandeiros e feiticeiros utilizam essas partes como matéria-prima para talismãs que dizem ser muito eficientes na parte amorosa.

Assista abaixo ao curta, narrado por Regina Casé, que conta a história de uma moça que se apaixona pelo Boto.

Ficha técnica
Ano: 2004
Produção: Patricia Alves Dias
Roteiro: Alunos das escolas da Prefeitura do Rio
Som Direto: A. Marcelo Galbetti
Direção de Arte: André Leão
Animação: Humberto Avelar
Empresa(s) produtora(s): MultiRio – Empresa Municipal de Multimeios
Edição de som: Ben Hur, Marcelo Galbetti
Produção Executiva: Regina de Assis
Montagem: Humberto Avelar
Música: Mario Zaccaro
Coordenação do projeto: Patricia Alves Dias

Brunin Assis

Cheirei um livro pela primeira vez aos quatro anos. Aos dez já era frequentador de bibliotecas. Aos quinze comecei a consumir exemplares mais pesados. Aos vinte não conseguia mais sair de casa sem um livro. Hoje sonho em ter uma casa cheia deles, mas tenho medo de ser preso por tráfico de cultura.