Juro que vi! – Saci

Juro que vi! - SaciRedd Angelo / unsplash

Em comemoração ao Dia do Folclore, já falamos sobre CurupiraBotoIara e Matinta Perera. Para encerrar, não podia faltar aquele que é um dos personagens mais famosos do folclore nacional. Ele já virou livro de Monteiro Lobato, personagem de Ziraldo, música de Villa Lobos, nome de dinossauro, mascote de time de futebol e foi cogitado como mascote para a Copa do Mundo de 2014. É lógico que o curta de hoje da série Juro que vi! vai falar do Saci.

Saci

Pois é, Seu Pedrinho, saci é uma coisa que eu juro que “exeste”. Gente da cidade não acredita – mas “exeste”. A primeira vez que vi saci eu tinha assim a sua idade. Isso foi no tempo da escravidão, na Fazenda do Passo Fundo, que era do defunto Major Teotônio, pai desse Coronel Teodorico, compadre de sua avó, Dona Benta. Foi lá que vi o primeiro saci. Depois disso, quantos e quantos!…

Não foi só o Tio Barnabé que andou vendo sacis por aí. A lenda do menino de uma perna só é famosa por todo o Brasil e data do final do século XVIII. Ele era retratado pelos indígenas como uma espécie de duende/criança guardião das florestas, que em algumas versões até possuía rabo. Com a chegada dos escravos africanos, a lenda foi adaptada e o saci tornou-se negro e, dizem, perdeu a perna durante uma luta de capoeira. O pito que sempre carrega também teria sido adquirido da cultura africana. Já a carapuça vermelha teria sido inspirada nos píleos dos trasgos europeus. Na versão apresentada por Monteiro Lobato em seus livros, o saci também tinha um furo na palma das mãos, que usava para brincar com brasas.

A principal característica do saci é o seu lado irreverente. Conhecido por suas traquinagens domésticas, ele é o responsável pelo azedamento do leite, pela comida queimada, milhos de pipocas que não estouram, por colocar sal na vasilha de açúcar e vice-versa, gorar o ovos das galinhas, quebrar as pontas das agulhas, atormentar cachorros, sumir com pequenos objetos… enfim, tudo é culpa do saci.

Com os viajantes ele consegue ser ainda mais sacana: seu objetivo é fazer com que eles se percam. À noite, sua diversão é assustá-lo com gritos agudos e que são impossíveis de localizar. São comuns os relatos de que o saci chupa o sangue de animais, principalmente dos cavalos. No dia seguinte, os animais ainda acordam com uma trança na crina.

Diz a lenda que em todo redemoinho de vento há um saci, pois é assim que eles se locomovem. Para capturá-lo, basta jogar uma peneira em cima do redemoinho. Com o saci capturado, o próximo passo é se apossar da carapuça e prendê-lo dentro de uma garrafa. Como o gorro é uma de suas fontes de poder, o saci é capaz de fazer qualquer coisa para consegui-lo de volta e, com isso, é possível controlá-lo.

Apesar de brincalhões, os sacis não são maus. Muito pelo contrário. Amantes das matas, eles são profundos conhecedores de ervas, da fabricação de chás e medicamentos. De acordo com as lendas, é necessário pedir autorização para os sacis quando se quer retirar esses materiais. Caso contrário, a pessoa se torna vítimas das aporrinhações.

As lendas também contam que os sacis nascem em bambuzais, chamado “sacizeiros”, nas partes mais profundas das florestas. Eles ficam sete anos dentro do bambu antes de poder sair. Depois disso vivem mais 77, tendo como principal missão atazanar as pessoas. Após esse período, o saci morre e se transforma em um cogumelo venenoso ou em orelhas-de-pau.

O saci, quem diria, tem até um dia exclusivo para ele. Com a criação da Sociedade dos Observadores de Sacis, em 2003, surgiu a ideia de resgatar os mitos nacionais e valorizar cada vez mais o nosso folclore. A data escolhida foi o dia 31 de outubro, marcada por outra festa importante, porém estrangeira: o Halloween. No mesmo ano, dois projetos de lei de autoria de Ângela Guadagnin (PT) e Aldo Rebelo (PC do B, atual Ministro do Esporte) propunham a criação do Dia do Saci no calendário oficial, mas não surtiram efeito e foram engavetados. Apesar disso, algumas cidades instituíram a data, como São Paulo, São José do Rio Preto (SP), Vitória, Fortaleza, Uberaba (MG) e Poços de Caldas (MG). Na cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), a data é tão importante que todo ano acontece uma festa em homenagem ao saci, que já está em sua décima edição.

Assista abaixo ao último vídeo da série Juro que vi!, que conta o que acontece quando se aprisiona um saci.

Ficha técnica
Ano: 2009
Direção: Humberto Avelar
Co-produção: Cleide Ramos
Roteiro: Humberto Avellar
Direção de Arte: André Leão
Animação: Humberto Avellar
Empresa(s) produtora(s): MultiRio – Empresa Municipal de Multimeios
Montagem: Marcus Martins

Brunin Assis

Cheirei um livro pela primeira vez aos quatro anos. Aos dez já era frequentador de bibliotecas. Aos quinze comecei a consumir exemplares mais pesados. Aos vinte não conseguia mais sair de casa sem um livro. Hoje sonho em ter uma casa cheia deles, mas tenho medo de ser preso por tráfico de cultura.