[Série] Concursos Literários – Do outro lado do texto

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Veja também: Parte 1 e Parte 2

Assim como os concursos, as motivações para participar também são diferentes e dependem do autor e sua posição no meio literário. O escritor Alexandre Lobão conta que atualmente só participa do concurso de Ficção Científica Brasileira (FC do B), idealizado em 2004 pela Book House Boys, com o objetivo de se divertir. Mas no início de sua carreira, Lobão considera que os concursos foram importantes para que ele continuasse escrevendo.

Autores que nunca publicaram encontram nos concursos literários um aval para a qualidade de suas obras. Rodrigo Domit, editor do blog Concursos Literários, acredita que o que leva as pessoas a começarem a participar é a ansiedade por saber se alguém que não conhecem e que entende de literatura vai gostar daquilo que produzem. “O dinheiro também pesa, mas acho que, no começo, é mais o desejo de saber se é bom – como se ficar de fora da lista de selecionados fosse um atestado de ruindade”, aponta.

Muitos concursos não garantem a publicação da obra, mas dão visibilidade ao autor. “Todos os participantes vão querer conhecer os textos e autores selecionados. Depois, o autor ainda pode enriquecer o currículo literário, enviar release para a imprensa local quando se destaca em algum prêmio e, se houver cerimônia de premiação, ainda tem a oportunidade da troca de experiências com outros selecionados e com os autores da região em que o concurso é realizado”, destaca Domit. A visibilidade pode ser uma chancela para o mercado editorial. O escritor Rafael Clodomiro acredita que os prêmios ajudam a tornar os escritores conhecidos no meio, o que facilitaria a publicação da obra. “As editoras não querem somente autores talentosos na arte de escrever, e sim, também, escritores que estão sendo bem falados, bem criticados”, diz.

O escritor Cristovão Tezza também acredita que os concursos eventualmente facilitem a edição, mas relativiza o papel dos concursos na inserção de um autor no mercado editorial. “Um prêmio pode chamar a atenção de uma editora, mas certamente não será determinante para a decisão de publicar um livro”, defende. O escritor, que foi finalista no Prêmio Internacional Impac-Dublin de literatura e faturou o Jabuti e Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, conta que nunca escreveu pensando em concursos. “Eles apareciam e eu me inscrevia, assim como mandava meus originais para as editoras. Jamais perdi o sono por não ganhar concurso”, afirma.

Cristovão Tezza, por Guilherme Pupo/Folhapress

Mas ele também acredita que eles podem abrir oportunidades. No seu caso, a menção honrosa no Prêmio Cruz e Souza para a obra Ensaio da Paixão, em 1981, valeu uma edição do livro em 1985. Já a segunda colocação no concurso da Petrobras facilitou a primeira edição de Aventuras provisórias. Mas Cristovão conta que o que de fato começou a lhe dar espaço na literatura brasileira foi a edição de Trapo, em 1988, por uma grande editora. “O mesmo texto que havia perdido dois ou três concursos de romances inéditos nos anos anteriores”, pontua.

A trajetória de premiações de Cristovão Tezza não é nem de longe parecida com a da maioria dos escritores. Muitos tentam concursos há bons anos e nunca conseguiram menções honrosas. Porém, não ser premiado em um concurso não significa necessariamente que um texto é ruim e muito menos que é hora de desistir de escrever. “Quem almeja se projetar como escritor deve antes de mais nada se preocupar em escrever bons livros. Concurso é acidente, não objetivo de vida”, acredita Cristóvão.

O julgamento
Até o dia 30 de setembro deste ano, algumas dezenas de livros de contos e poesias devem chegar à Rua Deputado Lacerda Franco, no bairro Pinheiros, em São Paulo. O endereço é do Grupo Editorial Scortecci, que promove anualmente o Prêmio Literário Livraria Asabeça. Do material enviado, será escolhido no dia 31 de dezembro um livro de contos e um de poesia para serem publicados pela Editora. Até lá, um longo caminho pela frente.

O editor responsável pelo certame, João Scortecci, conta que logo que as obras chegam, passam por uma primeira triagem feita por ele mesmo. Nessa primeira peneira saem os “trabalhos muito fracos” ou “com erros de português”. Ele explica que isso elimina cerca de metade do material. Depois da triagem é montada uma comissão julgadora, formada por escritores, que muda a cada ano. Este ano é provável que sejam contistas e poetas, para avaliarem esses dois gêneros contemplados pelo concurso.

Cada jurado escolhe dez trabalhos e depois discutem e mostram os prós e contas das obras pré-selecionadas. Em um processo nem sempre amistoso, a comissão julgadora deve sair com um único título a ser premiado. Mas, se cada um vota em uma obra, a escolha se complica. Aí a decisão volta a Scortecci, que é o editor responsável. É ele quem dá o voto de Minerva.

“Os jurados vão por uma preferência pessoal. Aliás, todo concurso é muito pessoal”, defende João. Não há um critério geral que norteie os autores na hora da escolha, mas Scortecci dá pistas sobre suas preferências: “os jurados procuram aquilo que é novo, que é diferente, aquilo que pode realmente representar um bom livro”. E o que pode representar um bom livro? A resposta está longe de ser um consenso.

Cristovão Tezza, que já foi membro de várias comissões julgadoras, entre elas a do último Prêmio Sesc de Literatura, conta que julgar dá muito trabalho, pela quantidade de leitura que exige e pela subjetividade inevitável da avaliação. “Literatura não é, e jamais deve ser, ciência exata. Quem entra num concurso deve estar ciente de que será objeto de uma avaliação de momento, segundo determinadas percepções e visões de literatura carregadas de uma inevitável, e de certa forma desejável, dose de subjetividade”, diz.

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques