Escritor Alcione Araújo morre em Belo Horizonte

Julia Marques | Pra Ler

Aos 67 anos, completos recentemente, o escritor Alcione Araújo faleceu, após uma parada cardíaca na madrugada de ontem, dia 15 de novembro. Estava hospedado em um hotel na capital mineira, na companhia da namorada e dos sogros.

Há 55 anos escrevendo, o escritor nascido em Januária, Minas Gerais, teve a oportunidade de conhecer gêneros distintos. Passou pelo teatro, pela televisão, cinema até chegar no romance e na crônica. Nos palcos, assinou peças como Doce deleite, Há vagas para moças de fino trato e A caravana da ilusão.No cinema, foi premiado pelo roteiro de Nunca Fomos Tão Felizes, de 1984.

Estreou no mundo dos livros em 1998 com o romance Nem mesmo todo o oceano. O Pra Ler conversou com o artista para uma entrevista que foi ao ar no programa número 16 pela Rádio UFMG Educativa, no dia 27 de outubro de 2011. Hoje, colocamos a entrevista na íntegra aqui. Na conversa, Alcione conta o que muda na hora de escrever para contextos tão diferentes. Também explica a influência da filosofia em sua escrita e conta um pouco sobre Ventania, seu último romance que narra a história de um menino que não conseguia aprender.

Como é transitar por gêneros diferentes, como a crônica jornalística, o romance, o  teatro e o roteiro de televisão e cinema?

A minha origem é o teatro, eu comecei a escrever teatro ainda muito jovem, com 22 anos e na verdade me profissionalizei como dramaturgo. No passo seguinte, como é natural no Brasil, fui convidado a trabalhar na televisão para desenvolver projetos de dramaturgia. Essa passagem é muito simples, não há muito mistério. O que altera na televisão é que ela é uma obra descontínua e que se elabora em processo, portanto, você começa a escrever a partir de certos aspectos ou certas trajetórias que você tem a intenção de vir a cumprir ao longo dos capítulos, mas que é suscetível de mudanças ao longo do trabalho, de modo que é uma maneira de escrever muito cheia de incertezas, de novidades e que você não detém um controle absoluto sobre a criação.

Depois evidentemente, estando num teatro, na televisão, no Brasil, com a carência de profissionais e, na verdade é um grupo de pessoas muito pequeno que decide essas coisas, você naturalmente é convidado a escrever para o cinema. Então essas três linguagens eu também fui escrever. Eu já escrevi quatorze filmes, roteiros de longa-metragem, que eu não dirijo, não tenho a intenção de dirigir, apenas escrevo. E no cinema há um certo salto porque ele não está nem ligado ao teatro, nem ligado à televisão, é uma linguagem muito autônoma, muito independente, de custo alto e público pequeno. Mas essa circulação não tem muita complexidade, não, porque a gente, até por índole, por interesse desde muito jovem, começa a frequentar o cinema e o teatro, inicialmente como entretenimento, depois passa a assistir de maneira sistemática.

O que foi muito diferente pra mim, foi uma atividade em que eu já cheguei tardiamente, foi o romance. Eu já era um profissional da escrita, mas o romance pra mim tinha um valor, uma paixão. Porque eu sou um leitor muito constante e muito viciado, talvez. E no meu processo interior e íntimo de valoração, o romance ocupava um lugar de muito destaque. E a partir de certo momento começou a germinar uma ideia e eu me aventurei num romance que é o meu primeiro que se chama “Nem mesmo todo o oceano”. E o romance deu uma mudança na minha vida completa porque eu me apaixonei por escrever romances e aí eu diminuí televisão, abandonei praticamente, só escrevo para algumas emissoras e teatro ficou rarefeito, muito rarefeito. Depois que eu escrevi esse romance surgiu uma oportunidade, essa era uma coisa que eu nunca pensei na vida, que é a crônica. Eu fui convidado pelo Estado de Minas para escrever uma crônica semanal. Inicialmente fui revezando com o Fernando Sabino, e depois o Fernando parou  e eu continuei, já faz dez anos que eu escrevo crônicas para o jornal Estado de Minas. A crônica pra mim foi uma novidade, eu nunca tinha pensado, embora fosse leitor de crônica, era uma coisa que nunca passou pela minha cabeça. Portanto, essas diversas linguagens surgem de uma maneira mais ou menos natural. Agora, no processo criativo é um pouco diferente, mas, enquanto trajetória, é uma coisa mais ou menos espontânea.

Quais elementos particulares na escrita de um texto para teatro?

As diferenças são muito grandes, na origem mesmo da criação. É muito sutil isso, mas as histórias elas já nascem romances, nascem teatro, nascem novelas, nascem crônicas e nascem cinema. Então quando a história me ocorre ou me ocorrem os personagens, ela já surge mais ou menos para uma linguagem específica. Isso é muito curioso, eu mesmo não sei explicar direito, mas as histórias surgem assim. Em relação ao teatro, por exemplo, no teatro surgem primeiro os personagens. Na verdade o teatro é uma linguagem muito profunda porque ela não se descreve, não há descrição, não há cenários. Toda a subjetividade que um romancista pode obter entrando na cabeça da personagem dizendo o que ela sente, o dramaturgo tem que dizer isso pelas atitudes e pelas falas, quase sempre ocultando-as, não revelando-as. No dialogo, na relação dos personagens, aparece todo o ser subjetivo de cada personagem, como ele é, como ele se manifesta, agindo e falando. E se relacionando com os outros. Como dizia Camus, o teatro é um lugar onde você pensa agindo, você não para pra pensar. O teatro não evoca o passado, ele acontece ali e agora para o público e ao mesmo tempo ele conta com a imaginação do público porque, eu vou até citar Shakespeare, que tem um personagem que diz assim: “considerem-se os senhores que estamos em pleno mar e esta é uma nau a vagar”. O teatro não vai colocar o mar e uma nau a vagar, ele conta com a complacência e a credibilidade que ele tem com a plateia e também com a criatividade da plateia que é capaz de entender que aquela cena está se passando em alto mar e que eles estão numa nau a vagar. O teatro é uma linguagem mais sofisticada, mais essencial, mais purista, que se dá num abstrato e numa profunda comunicação com a plateia. O teatro por é feito de pessoas vivas, imitando pessoas para que pessoas vejam. Ele se dá naquele instante, um espetáculo é muito diferente do outro. É um tipo de criação muito peculiar.

Isso já não acontece com o cinema, o cinema é todo industrializado, ele depende de tecnologia, mas a plateia assiste no escuro, uns não conhecem os outros, não tem aquela coisa de estar a vida ali presente no palco e suscetível de erros como é no teatro. O cinema é muito artificial, embora, para as pessoas menos iniciadas, ele pareça mais natural porque a cachoeira é cachoeira, o carro é carro, no entanto, ele é muito mais artificial do que o teatro. E o cinema também, pela presença da imagem, o movimento das câmeras, ele tem uma gramatica que é uma gramatica cinematográfica, a maneira como as coisas são narradas. Ele dispõe da imagem, da montagem. A montagem e o corte criam tensões, relaxamentos, humor, drama, tragédia. Só a maneira de olhar, cortar e montar. A maneira de escrever é muito diferente e é muito artificiosa.

O romance é outra história completamente diferente porque eu posso entrar na cabeça das personagens, o leitor lê sozinho e a obra. No final das contas, o que é lido é uma articulação entre o que o autor escreveu e o que o leitor percebeu, porque o que o autor faz é estimular a imaginação do leitor, convida-lo a fazer uma viagem imaginária. E a obra resultante é um pouco dos destinos que o autor está propondo no texto escrito e da bagagem existencial que tem o leitor e que é capaz de se fundir e complementar a do autor. Portanto, a obra romanesca é uma obra que a sua percepção estética vem do conjunto extenso de experiências do leitor e do autor, que se dá num patamar exclusivo. Por isso, o romance oferece uma infinidade de interpretações porque a descrição de um personagem em uma obra de romance é feita com palavras, ao passo que o cinema te oferece imagens, ao passo que o teatro te oferece atitudes. O romance é muito mais aberto à imaginação. Para um determinado personagem você pode imaginar que se parece com a sua tia, ou com um ex-namorado, ou com sua avó. Enquanto que no cinema isso é oferecido inteiramente, a cara do ator é esta, e ele faz isto.

E a crônica, que é a mais leve de todas, é uma maneira de escrever tipicamente brasileira, não há em outros países esse costume. Mas ela é uma espécie de sussurro que o cronista faz ao ouvido do leitor, em meio aos gritos das manchetes, dos acontecimentos reais. Chega ali alguém e faz um sussurro, com o leitor falando de coisas que nada tem a ver com o noticiário. Falando de um ponto de vista muito pessoal, quase sempre ele está olhando para um lugar muito diferente do que o contexto do jornal olha e está olhando com olhos muito particulares e diferentes daqueles olhos do leitor. Portanto, ela é uma obra efêmera, a crônica é publicada no jornal e se distribui para todo canto e depois vai embrulhar peixe. São linguagens muito distintas, mas todas tem em comum, trabalhar com a palavra.

Você é pós-graduado em filosofia, como a filosofia influenciou esses seus trabalhos na literatura?

Eu não sei determinar muito bem como é essa influência. A filosofia entrou na minha vida porque eu tenho certa curiosidade intelectual e eu gosto daqueles problemas, daquelas indagações, daquelas perguntas e aquilo me alimenta muito bem. Passei a ler e depois resolvi fazer isso de maneira mais sistemática, frequentando um curso e fui enfronhando com essas coisas. Eu acho que apenas a filosofia é uma maneira muito particular de imaginar o mundo fazendo perguntas ao próprio mundo e eu acho que a obra de criação parte do mundo e faz perguntas ao próprio mundo. A obra de ficção não é pra dar respostas. […] Os escritores, os artistas de modo geral são muito neuróticos, eles não são muito bem adaptadas ao mundo e aí a gente acaba criando mundos novos, nos quais  a gente se sente mais adaptado do que nesse mundo aparentemente real, dito real. Mas é difícil você falar da realidade do mundo quando cada pessoa, cada habitante tem uma subjetividade muito grande, cada ser humano é um abismo muito grande nele mesmo. Eu não consigo penetrar nos reais sentimentos das pessoas, nos reais valores dela, em como ela é internamente. Eu a vejo com um olhar muito superficial. Mas a medida que eu vou em aprofundando em determinado personagem ou o psicanalista vai se aprofundando no seu paciente, cada ser humano é um abismo intangível, impalpável, indecodificável. Somos seres tão estranhos que cada um de nós olha no espelho e não sabe dizer para si mesmo “quem sou eu”.

Vamos falar um pouquinho sobre o livro Ventania que você está lançando. Dá pra adiantar um pouquinho do que o leitor vai encontrar na obra?

Esse livro se chama “Ventania” e pela primeira vez eu tentei trabalhar com um personagem que é um adolescente de treze anos. E é um garoto que é burro, ou que nós chamamos burro, que foi sempre o que me intrigou, esses garotos que não conseguem aprender, não conseguem prestar atenção e aí começam a ser excluídos. Começam a ser destratados na família, começam a ser excluídos na escola porque as escolas são todas feitas para o nível médio. A escola  é para os que acertam, então eu me perguntava, o que acontece com os que erram? E há muitos casos, de Winston Churchill, Albert Einstein, que foram expulsos da escola, saíram da escola. A partir dessa indagação, eu peguei um garoto, de uma cidade do interior, uma cidade que se chama Ventania, onde o trem deixou de funcionar porque não tinha mais viabilidade econômica. E tinha um garoto, de uma família, que não consegue aprender e começa a se relacionar com outros garotos que estão na franja dessa sociedade. E ele está no que se chama de “descaminho”. Eu quero investigar o que é esse descaminho e por que a gente se vangloria tanto da educação. Eu sou uma pessoa que me debruço sobre a educação, eu fui professor universitário, me interessa muitíssimo. Mas também me interessa como a educação exclui tanta gente talentosa, que podia se desenvolver. Aí são tantas reflexões que se pode tirar disso, mas o livro é um romance. E então eu vou acompanhar esse garoto e, por coincidência naquela cidade surge uma bibliotecária voluntaria. E aí ele começa a descobrir o mundo pela leitura. Essa bibliotecária acaba sendo uma professora pra ele, da descoberta do mundo, da leitura, das relações entre os homens. E ele descobre também a relação de amor com ela, a relação com o sexo. Ele começa a descobrir a vida inteira pela biblioteca. E aí a família sai um pouco do mundo dele, a escola sai um pouco do mundo dele e ele vai descobrir por outros caminhos.

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques