Cinema versus literatura

Cinema versus literaturaDylan Luder / unsplash

Convenhamos que existe uma certa rixa entre as duas artes. Principalmente quando se trata de adaptações. Críticos de ambos os lados defendem o seu peixe. Outros tantos pesquisadores e especialistas apoiam o intercâmbio entre as duas artes e criticam a prática comum de classificar as adaptações como secundárias ou de pior qualidade.

A verdade é que as duas áreas há muito tempo dialogam e têm muito em comum, a começar pelo ponto de partida – a narrativa* (saiba mais aqui).

Diga se de passagem, as adaptações são um filão bem rentável e cada vez mais explorado, no exterior e no mercado brasileiro. Mas produzir essas releituras não é um mar de rosas. Entre os desafios, estão a aquisição dos direitos das obras e os autores muitas vezes resistentes a ver seu texto remexido nas telonas.

Escritores como Stephen King não curtiram muito as adaptações de suas obras. King, segundo o New York Daily News, disse não gostar de Jack Nicholson como Jack Torrance, no tão aclamado “O Iluminado”. O filme, dirigido por Stanley Kubrick, foi baseado no livro de mesmo nome publicado em 1977. Outro exemplo é Mary Poppins, da Disney, que levou dois Oscars em 1985, mas não agradou muito a autora da série. Pamela Travers chegou a chorar de decepção na première do filme.

Livros nas telonas e vive e versa

Entre as obras que viraram filmes estão nomes clássicos e best sellers, nacionais e internacionais, recentes e antigos. A lista tem gêneros e gostos variados. Alguns exemplos são “Senhor dos Anéis”, sucesso estrondoso tanto nos livros quanto nas telonas e que acaba de gerar mais um filhote com a adaptação de “O Hobbit”; “Até o Dia em que o Cão Morreu”, de Daniel Galera; “O Cheiro do Ralo”, do escritor, ator e desenhista, Lourenço Mutarelli; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, inúmeras vezes adaptado; “Ensaio sobre a Cegueira”, do Nobel José Saramago; “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino; e por aí vai. Acredite, a lista não tem fim. Mais raros são os livros baseados em filmes. Em geral, são publicações de roteiros originais, como em “O Bandido da Luz Vermelha” e “Bastardos Inglórios”, ou obras infantis adaptadas de desenhos animados.

Em 2013, vários filmes inspirados em livros chegarão aos cinemas brasileiros, como “Os Miseráveis”, “Anna Karenina”, “Carrie” e “O Hobbit – A desolação de Smaug“, segunda parte da trilogia.

Interseção

O diálogo entre literatura e cinema, entretanto, não se restringe a adaptar obras literárias para as telonas ou vice e versa. “Roteiros originalmente escritos para cinema também receberam muito da literatura. Escritores são inspirados por filmes a que assistiram, tanto quanto roteiristas por livros que leram. Um texto pode ser “cinematográfico”, enquanto há filmes que exploram a linguagem “tal como faz a literatura”, como explica o site do Festival Adaptação, que teve sua 3ª edição em novembro de 2012.

O evento é uma proposta abrangente que pretende atuar na interseção da literatura com o cinema, campo pra lá de fértil. O Festival teve como recorte neste ano a Semana da Arte Moderna e a influência do movimento nas artes brasileiras. Para quem tiver interesse, o site armazena vídeos dos debates que fizeram parte da programação.

Mais sobre o diálogo entre as duas artes nos artigos “Ver um livro, ler um filme: Sobre a tradução/adaptação de obras literárias para o cinema como prática de leitura”, de Marcel Álvaro de Amorim, e “Literatura, cinema e adaptações”, de Pilar Fazito.

OBS: Já falamos de adaptações no Pra Ler aqui, aqui e aqui

*Importante ressaltar nem sempre cinema e literatura partem da narrativa. O cinema novo, por exemplo, tentou se afastar desse lugar e nem toda literatura faz parte deste gênero, como a poesia lírica

Texto originalmente publicado no Guia Entrada Franca

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.