Trinta anos de trabalho no lixo

Mais de 30 anos de trabalho do argentino Daniel Mordzinski, conhecido como o “fotógrafo dos escritores”, desapareceram para sempre
Trinta anos de trabalho no lixoRedd Angelo / unsplash

50 mil negativos e fotos originais, resultado de mais de 30 anos de trabalho do argentino Daniel Mordzinski, conhecido como o “fotógrafo dos escritores”, desapareceram para sempre. As imagens, que em sua maioria nunca tinham sido digitalizadas, estavam guardadas há anos em uma sala na sede do jornal Le Monde, ocupada pelo correspondente do jornal espanhol El País, Miguel Mora. O “desaparecimento” do trabalho causou indignação nos fãs, amigos e escritores fotografados por Daniel.

No último dia 7 de Março, Miguel Mora, chegou ao Le Monde e percebeu que a sala tinha sido esvaziada sem que ninguém fosse avisado. O armário em que Mordzinski guardava os negativos e fotografias, tiradas entre 1978 e 2006 foi achado vazio num sótão do edifício. “Milhares de fotografias, centenas de dossiês com a legenda ‘Cortázar’, ‘Israel’, ‘Escritores latinoamericanos’, ‘Semana Negra de Gijón’, ‘Carrefour de littératures’, ‘Saint Malo’, ‘Mercedes Sosa’, ‘Borges’, ‘Astor Piazzola’ etc, não lhes dizem nada e atiram tudo para o lixo sem consultar ninguém”, escreveu em uma carta publicada no seu site em que pedia ajuda a amigos.

“Ninguém sabe nem quer saber por que decidiram fazer ‘desaparecer’ o trabalho de toda a minha vida. (…) Ainda que não haja nada a recuperar gostaria que ao menos se saiba que o que aconteceu no Le Monde é mais do que uma negligência: é um profundo desprezo por um trabalho que faz parte da nossa cultura contemporânea”,

dizia ainda a carta.

Em comunicado divulgado no dia 19, o Le Monde lamentou que Mordzinski, “depois de ter decidido depositar os seus arquivos na sede do diário sem avisar ninguém do Le Monde, descarregue no jornal toda a responsabilidade do incidente, e que tenha posto em marcha uma campanha” nas redes sociais. O jornal afirmou ainda que não havia acordo formal entre o Le Monde e o El País, possibilitando que Mordzinski arquivasse seu trabalho no jornal.

Fotinskis
Em grande parte do seu trabalho, Daniel Mordzinski tira o escritor do seu lugar habitual. Nessas imagens, Eric Hobsbawn, por exemplo, autografa um livro para um poodle, Luis Sepúlveda veste luvas de boxe, Mario Vargas Llosa escreve embaixo de um lençol e Enrique Villa Matas abre o sobretudo e se mostra todinho. Essas fotografias absurdas e bem humoradas são chamadas por Daniel de “fotinskis”. Para ele, “a única maneira de tirar a pose de escritor de um escritor é colocá-lo em outra pose”.

Uma das manifestações em favor de Mordzinski , foi do escritor brasileiro João Paulo Cuenca, no blog do IMS. No texto, Cuenca faz uma análise interessante do trabalho do fotógrafo:

“vejo suas fotinskis como um comentário irônico e bem-humorado sobre o que se transformou a vida do escritor: uma performance ambulante em palcos iluminados – em que leitores são muitas vezes trocados por espectadores que consomem o discurso sobre a obra, mais que a obra em si. Não há fotógrafo de escritores que tenha captado melhor o desconforto e a contradição desse processo através da sua gramática fotográfica. O escritor do século XX virou um animal em exibição cujo cativeiro são hotéis de luxo pelo mundo – o retrato disso está na obra de Mordzinski”.

Nas “fotinskis” ou em imagens tradicionais, Daniel Mordzinski retrata escritores há mais de trinta anos, buscando criar um ambicioso ”atlas humano” da literatura iberoamericana. E todo esse trabalho se perdeu.

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.