Devolva o Neruda que você me tomou

Devolva o Neruda que você me tomouRedd Angelo / unsplash

Começa hoje o processo de exumação dos restos mortais do poeta chileno Pablo Neruda. O escritor, morto em setembro de 1973, foi enterrado a 100 quilômetros de Santiago, a capital chilena. Doze pessoas, entre peritos do serviço forense, especialistas da Universidade do Chile e observadores internacionais, participarão da exumação.

O objetivo da tarefa é conhecer a verdadeira causa da morte do poeta. De acordo com a versão oficial, Pablo Neruda teria morrido em consequência de complicações causadas pelo câncer de próstata. Amigos e familiares de Neruda, entretanto, seguem com dúvidas sobre a real causa da morte, já que o escritor era um crítico do governo militar e morreu doze dias depois do golpe militar de Augusto Pinochet, que depôs o Presidente Salvador Allende.

Há versões de que Neruda tenha sido envenenado pelo governo militar. Manuel Araya, seu motorista no último período de sua vida, disse que o escritor lhe telefonou do hospital onde estava internado e contou tinham dado uma injeção em seu estômago.

Em 2011, Araya levantou a suspeita sobre a causa da morte do poeta, fazendo com que o Partido Comunista, ao qual Neruda pertencia, apresentasse um pedido à Justiça para abertura do inquérito. Em fevereiro, o juiz da Corte de Apelações de Santiago decidiu pela exumação para esclarecer as causas da morte.

Através de observações e análises, os peritos vão procurar sinais de cancro nos ossos e de substâncias tóxicas. Quase 40 anos depois da morte do escritor, com os tecidos já decompostos, a tarefa não é fácil. Os resultados só sairão daqui a alguns meses.

Neruda no Brasil

Em 1945, o poeta participava de um evento no Pacaembu, que reuniu 100 mil pessoas em torno do líder comunista Luís Carlos Prestes, recém liberto da prisão. Em homenagem a Prestes, Neruda leu o poema “Dicho em Pacaembu”:

Cuántas cosas quisiera decir hoy, brasileños,
cuántas historias, luchas, desengaños, victorias
que he llevado por años en el corazón para decirlos, pensamientos
y saludos. Saludos de las nieves andinas,
saludos del Océano Pacífico, palabras que roe han dicho
al pasar los obreros, los mineros, los albañiles, todos
los pobladores de mi patria lejana.
[…]

Leia o poema na íntegra aqui.

Em dezembro de 2011, o Pra Ler publicou a Última Entrevista concedida por Pablo Neruda a sua amiga Margarita Aguirre. Neruda fala de Borges, dinheiro, timidez, América Latina. E já prevê a tragédia política no Chile, “um Vietnã silencioso em que não há bombardeios”. Releia aqui.

Julia Marques

Julia Marques

Quando era bem pequena resolvi escrever um livro. Era a história de um barquinho que perdeu o rumo no mar. Desde então, minha relação com a literatura vem em ondas: às vezes bate forte, sacudindo tudo. Outras vezes sossega. Encontrei no Pra Ler o sopro para essa aventura. Meu barquinho infantil segue cambaleando por esse mar de histórias, personagens, e cenários. Talvez um dia ele aviste um porto.
Julia Marques