12 livros que inspiraram filmes indicados ao Oscar 2016

Adaptações literárias disputam a estatueta na 88ª cerimônia de entrega do prêmio da Academia
12 livros que inspiraram filmes indicados ao Oscar 2016divulgação / reprodução

O ano sempre começa movimentado para os amantes da sétima arte – está aberta a temporada de premiações e é tempo de tirar o vira-tempo do armário o atraso e conferir todos os filmes que estão na disputa. Já seria uma empreitada ambiciosa, mas, se você também divide o amor pelo cinema com a paixão pela literatura, sabe que a lista cinematográfica se desdobra em uma outra maratona impossível: a de todos os livros que inspiraram os longas indicados à estatueta de ouro. Para essa é melhor esquecer o dia 28 de fevereiro (data em que será realizada a cerimônia do Oscar 2016) e pensar em um planejamento com maior prazo: além dos cinco indicados ao prêmio de Melhor Roteiro Adaptado – todos inspirados em obras literárias –, outros livros aparecem nas entrelinhas da lista de indicados às 24 categorias da premiação deste ano.

Conheça 12 livros que inspiraram filmes que concorrem à estatueta de ouro e comece a sua maratona literária:

CAROL

(dir. Todd Haynes, roteiro Phyllis Nagy)

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Indicado aos prêmios de Melhor Roteiro Adaptado, Atriz (Cate Blanchett), Atriz Coadjuvante (Rooney Mara), Figurino, Trilha Sonora Original e Fotografia

// Inspiração literária: Carol ou O Preço do Sal (1952), de Patricia Highsmith

Quando foi lançado, em 1952, O preço do sal trazia o pseudônimo “Claire Morgan” na capa – foi só na década de 1980 que Patricia Highsmith assumiu a autoria de seu segundo romance, rebatizando-o como Carol. Patricia tinha medo de ser rotulada pelo teor da trama de sua nova obra – diferente da história de estreia da autora (Pacto Sinistro, suspense levado para os cinemas em 1951 por Alfred Hitchcock), em que dois homens arquitetam um plano para cometer dois assassinatos sem deixar rastros, seu segundo livro tinha um tema “mais polêmico”: o amor entre duas mulheres. Na história, a jovem Therese Belivet trabalha como vendedora em uma loja de departamentos e, em meio aos vários rostos desconhecidos, ela avista Carol, uma mulher elegante por quem se encanta. A obra, que foi um sucesso de vendas, foi pioneira por fugir das amarras do gênero – a literatura com personagens lésbicas da época (voltada principalmente para homens) seguia uma fórmula pra lá de machista: a jovem “inocente e influenciável” eventualmente acabava se “endireitando” ao encontrar um homem especial, enquanto a mulher madura amargava a solidão. Já para a relação de Therese e Carol, um spoiler do bem: há a possibilidade de um final feliz.

Quando estou com Marnie

(dir. Hiromasa Yonebayashi, roteiro Keiko Niwa, Masashi Ando, Hiromasa Yonebayashi, David Freedman)

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Indicado ao prêmio de Melhor Animação

// Inspiração literária: When Marnie Was There (1967), de Joan G. Robinson

Quando estou com Marnie pode acabar sendo o último filme do Studio Ghibli, que anunciou a interrupção de suas atividades, por tempo indeterminado, em 2014. O estúdio japonês, fundado em 1985 por Isao Takahata, Toshio Suzuki e pelo lendário Hayao Miyazaki, é responsável por dar vida a personagens inesquecíveis e animações marcantes como Meu Amigo Totoro (1988), Princesa Mononoke (1997) e o vencedor do Oscar de Melhor Animação A viagem de Chihiro (2001). A derradeira animação é uma adaptação do livro da britânica Joan G. Robinson, indicado ao prêmio Carnegie Medal, que acompanha o desenvolvimento da amizade entre Anna, uma garota solitária que é enviada para morar um tempo à beiramar para tratar da saúde, e a misteriosa Marnie, que Anna acredita ser fruto de sua imaginação.

TRUMBO

(dir. Jay Roach, roteiro John McNamara)

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Indicado ao prêmio de Melhor Ator (Bryan Cranston)

// Inspiração literária: Trumbo (1977), de Bruce Cook

Em 1947, mesmo ano que Joseph McCarthy se elegeu para o Senado dos Estados Unidos, o jornal The Hollywood Reporter divulgou uma série de nomes de vários profissionais do cinema americano supostamente envolvidos com o comunismo. Daí, já viu: os temores de “subversão comunista” alimentados pela Guerra Fria fizeram com que todos os olhares se voltassem para a possibilidade de comunistas estarem ~sutilmente instalando sua propaganda~ nos filmes de Hollywood. Dez pessoas foram intimadas a depor no chamado “Comitê de Atividades Antiamericanas”. Entre os Dez de Hollywood (como esse grupo perseguido durante a caça às bruxas de McCarthy passou a ser conhecido), estava o roteirista Dalton Trumbo, que dá nome ao filme dirigido por Jay Roach e ao livro escrito por Bruce Cook, no qual o longa é inspirado.

A garota dinamarquesa

(dir. Tom Hooper, roteiro Lucinda Coxon)

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Indicado aos prêmios de Melhor Ator (Eddie Redmayne), Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Direção de Arte, Figurino

// Inspiração literária: A Garota Dinamarquesa (2000), de David Ebershoff

Anualmente, o MIX Copenhagen – que é o mais antigo festival de cinema da Dinamarca e busca ampliar a visibilidade de histórias LGBTQI+ na mídia e nas telas –, premia com o Lili Award os melhores longas-metragens, documentários e curtas-metragens de cada edição. O nome do prêmio é uma homenagem à artista Lili Elbe, uma das primeiras a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, na década de 1930. A figura pioneira de Lili também inspira o livro A garota dinamarquesa, de David Ebershoff, uma ficcionalização da vida de Elbe e de sua esposa, a também artista Greta Waud. É essa versão da história que inspira o filme de Tom Hooper, criticado pela escolha de um ator cisgênero para dar vida a uma mulher trans e por se basear exclusivamente no romance ficcional de Ebershoff. Para conhecer mais sobre a história, vale conferir também Man into Woman, livro que reúne cartas, trechos dos diários e relatos de Lili e Gerda, lançado em 1933.

Brooklyn

(dir. John Crowley, roteiro Nick Hornby)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Atriz (Saoirse Ronan)

// Inspiração literária: Brooklyn (2009), de Colm Tóibín

Lançado em 2009, o livro do irlandês Colm Tóibín chamou a atenção do mundo literário – além de ter arrematado o prêmio Costa Book (que prestigia livros em língua inglesa lançados no Reino Unido e na Irlanda), Brooklyn apareceu ao lado de obras clássicas como Guerra e Paz, de Tolstoi, na lista dos 10 melhores romances históricos do jornal The Guardian em 2012. A história, que se passa no início da década de 1950, acompanha Eilis Lacey, uma jovem que, com dificuldades para encontrar trabalho em seu país natal, embarca rumo à Nova York (destino de tantos outros de seus compatriotas irlandeses) em busca de melhores oportunidades profissionais e de estudo. E é a transição transatlântica de Eilis da pacata e familiar Enniscorthy para o novo e desconhecido Brooklyn – bairro onde ela vivência tanto o sentimento doloroso da isolação quanto a empolgação e alegria pelas possibilidades que a imigração lhe oferece – que acompanhamos no romance e no longa. Na telona, fazendo jus à elogiada prosa de Tóibín, quem assina o roteiro é o também escritor Nick Hornby – autor de romances como Alta Fidelidade e Juliet, Nua E Crua.

Perdido em Marte

(dir. Ridley Scott, roteiro Drew Goddard)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Matt Damon), Efeitos Visuais, Edição de Som, Direção de Arte

// Inspiração literária: Perdido em Marte (2011), de Andy Weir

De um blog despretensioso para Oscar – o romance de Andy Weir fez uma viagem quase tão hollywoodiana quanto a de Mark Watney, o protagonista que precisa sobreviver a uma situação terrível, horrível, nada boa no Planeta Vermelho. Filho de um físico e uma especialista em engenharia elétrica, Andy Weir cresceu em um ambiente marcado pela ciência. E, explorando as obras de autores clássicos como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov, consolidou seu amor pela ficção científica. Cultivando a programação como um hobby, aos 15 começou a trabalhar com análise de dados, e, pouco depois, ingressou na Universidade da Califórnia para estudar Ciência da Computação. Enquanto desenvolvia softwares, reservava o tempo livre para sua segunda paixão: aos 20 e poucos começou a publicar alguns de seus contos em um blog. Não cobrava pelo conteúdo e não fez um grande esforço para divulgação, mas acabou chamando a atenção de outros interessados em ficção científica. Em 2009 (aos 37 anos), ele teve a ideia para o livro que viria a ser Perdido em Marte. Para sua odisseia no espaço, Weir mergulhou em estudos sobre astronomia e mecânica orbital, e criou até um programa para simular toda a ciência apresentada no livro. Procurou algumas editoras sobre a possibilidade de publicação de sua obra, mas, sem resposta, resolveu distribuir o livro gratuitamente, um capítulo por vez, em seu site. A história fez tanto sucesso que os leitores pediram que ele que lançasse uma versão para o Kindle – disponibilizado o livro por 99 cents na Amazon (o menor valor possível), a obra chegou à lista de mais vendidos, chamou a atenção da Crown Publishing Group, que adquiriu os direitos para publicação da obra, e de Hollywood, que transportou a história para a telona com elenco estrelado. Nada mal.

O quarto de Jack

(dir. Lenny Abrahamson, roteiro Emma Donoghue)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Diretor e Atriz (Brie Larson)

// Inspiração literária: Quarto (2011), de Emma Donoghue

Para o pequeno Jack, de cinco anos, seu pequeno quarto é o mundo todo: é onde ele e sua mãe passam todas as suas horas, onde comem, dormem e brincam. O que o garotinho não sabe é que o espaço onde se sente completamente seguro e protegido é a prisão onde a mãe tem sido mantida há anos contra a sua vontade. Essa é a premissa do livro da escritora irlandesa Emma Donoghue e de sua adaptação cinematográfica homônima, que também tem o roteiro assinado pela autora. A ideia para O quarto de Jack, indicado ao Man Brooker Prize e ao Orange Prize e vencedor do Commonwealth Writers’ Prize, veio de um terrível caso real descoberto em 2008: durante 24 anos, o austríaco Josef Fritzl manteve sua filha presa em um porão junto dos filhos frutos do abuso ao qual ele a submetia. Apesar de não se tratar de uma ficcionalização do caso, ele teve enorme impacto na autora – ao ler reportagens sobre o filho mais novo de Elisabeth, que conheceu o mundo externo ao porão pela primeira vez aos cinco anos de idade, a ideia do enorme estranhamento e impacto que a experiência deve ter causado no pequeno inspiraram Donoghue a contar a história de mãe e filho em situação similar.

A grande aposta

(dir. Adam McKay, roteiro Adam McKay e Charles Randolph)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Diretor, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Montagem

// Inspiração literária: A jogada do século: A história do colapso financeiro de 2008(2010), de Michael Lewis

Elogiado por tornar a crise financeira de 2007-2008 compreensível (apesar do amontoado de termos e operações financeiras indecifráveis e aparentemente intransponíveis para quem está fora da Wall Street – e, ocasionalmente, incompreensível até para os engravatados), o filme A grande aposta usa o humor para tornar ainda mais claro as absurdas circunstâncias que culminaram no colapso financeiro que deixou milhares de pessoas sem empregos e casas. Pelo mesmo motivo, o livro de não-ficção assinado pelo jornalista e escritor Michael Lewis, que inspira o filme, também tem um quê tragicômico: ele acompanha o estranho grupo de pessoas que, em diferentes circunstâncias, perceberam que havia uma bolha no mercado imobiliário prestes a estourar – e apostaram que ela aconteceria, lucrando com a crise.

Spotlight – Segredos Revelados

(dir. Tom McCarthy, roteiro Tom McCarthy e Josh Singer)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Diretor, Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Montagem, Roteiro Original

// Inspiração literária: Betrayal: The Crisis in the Catholic Church(2015), da Equipe Investigativa do jornal Boston Globe

Em 31 de janeiro de 2002, após seis meses de trabalho dos jornalistas da equipe investigativa “Spotlight”, o jornal Boston Globe publicou uma série de reportagens que conseguiu lançar luz sobre os casos de centenas de crianças em Boston que foram abusadas, ao longo de vários anos, por mais de 80 padres católicos – e provar que os crimes cometidos pelos membros da arquidiocese eram conhecidos (e acobertados) pela Igreja Católica. Antes de inspirar o filme lançado em 2015, a investigação, que recebeu o prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003, inspirou uma reação global: outras vítimas se sentiram encorajadas a denunciarem casos de abuso, resultando em mais ações judiciais e processos criminais.

Steve Jobs

(dir. Danny Boyle, roteiro Aaron Sorkin)

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Indicado aos prêmios de Melhor Ator (Michael Fassbender) e Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)

// Inspiração literária: Steve Jobs(2011), de Walter Isaacson

Steve Jobs, biografia autorizada do co-fundador da Apple, foi lançada em 24 de outubro de 2011 nos EUA, apenas 19 dias depois da morte do polêmico inventor. Mas a coincidência da data tem pouco de oportunista: a pedido de Jobs, já fazia dois anos que o escritor e jornalista Walter Isaacson havia começado a trabalhar no livro (que já tinha data de publicação anunciada desde agosto de 2011). Foram mais de 40 entrevistas com o biografado, mais de 100 conversas com familiares, amigos, rivais e colegas para registrar um pouco da intensa personalidade do empreendedor perfeccionista. O livro serve como inspiração para o filme dirigido por Danny Boyle – estruturado em três atos ligados ao lançamento de produtos-chave da Apple, o longa acompanha 14 anos da vida de Jobs.

O Regresso

(dir. Alejandro G. Iñárritu, roteiro Alejandro G. Iñárritu e Mark L. Smith)

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Indicado aos prêmios de Melhor Filme, Direção, Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Direção de Arte, Fotografia, Efeitos Visuais, Figurino, Edição de Som, Mixagem de som, Montagem, Maquiagem

// Inspiração literária: O Regresso(2002), de Michael Punke

O Regresso, longa que arrematou o maior número de indicações à estatueta de ouro, é baseado no livro de Michael Punke. Para escrever a história de vingança, o escritor, ensaísta e analista político buscou inspiração em fatos reais: na história, que se passa em 1823, acompanhamos Hugh Glass, um dos melhores e mais experientes caçadores da Companhia de Peles Montanhas Rochosas – grupo que desbrava terras inexploradas dos Estados Unidos, enfrentando o clima implacável, as feras selvagens e a ameaça constante de confronto com os índios, que defendiam suas terras da invasão dos homens brancos. Em uma das missões da companhia, depois de ser atacado e gravemente ferido, Hugh é abandonado, sem armas e suprimentos, por seus colegas. Provando que vingança é mesmo um prato melhor servido geladinho, Glass testa seus limites para sobreviver e reencontrar os homens que o abandonaram.

45 anos

(dir. e roteiro Andrew Haigh)

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Indicado ao prêmio de Melhor Atriz (Charlotte Rampling)

// Inspiração literária: In Another Country: Selected Stories(2015), de David Constantine

É bem possível que você nunca tenha lido nada de David Constantine. Apesar de premiado e atuante desde a década de 1980, os versos e a prosa do britânico são mais conhecidos na terra da Rainha. Boa notícia é que, com a adaptação de In Another Country, uma coletânea com esse e outros 16 contos do autor, publicados ao longo de mais de duas décadas, foi lançada (em inglês) no ano passado. A história que dá título e inspira o filme, lançada originalmente em 2001, acompanha um casal que está prestes a comemorar 45 anos de casados quando o marido recebe uma carta que abala o aparentemente feliz relacionamento. Parte da ideia para o conto veio de um evento real: cerca de 15 anos atrás, o corpo de um alpinista de 20 anos que havia caído em uma fenda glacial em 1930 foi descoberto após o degelo – coube ao filho do montanhista, já com quase 80 anos, identificar o corpo jovem de seu pai, preservado pelo gelo, uma experiência que o levou à loucura. A assustadora imagem do corpo intocado pelo tempo marcou Constantine, que tentou transpor uma interpretação desse evento real (e surreal) para as páginas em um novo, mas igualmente perturbador, contexto.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.