O ritmo visual da pontuação

Quando as palavras são subtraídas, pontuações sinalizam diferentes estilos e ritmos literários
O ritmo visual da pontuaçãoNicholas Rougeux / Between the Words

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É assim que começa, na língua inglesa (e com algumas palavras entre os sinais de pontuação, é claro), Moby Dick, romance de Herman Melville. Para quem está imerso na prosa, é fácil dar pouca atenção para essas pequenas marcações. Mas, muito além de separar sentenças e orações, pontos, travessões, exclamações, interrogações e parênteses ajudam a imprimir à narrativa um movimento próprio – entre um sinal e outro, a leitura flui de forma singular em cada obra.

pontuações_moby-dickMoby Dick | Nicholas Rougeux / Between the Words

Foi para explorar o compasso ditado pelos autores em obras literárias clássicas que Nicholas Rougeux criou Between the Words, série de cartazes que brinca com o ritmo visual dos sinais de pontuação. Para criar as peças, o artista procurou obras em domínio público disponíveis no Projeto Gutenberg. Nicholas eliminou letras, números, espaços e quebras de linhas dos textos integrais, deixando apenas a pontuação em uma linha contínua de símbolos, do jeitinho em que aparecem nas obras originais. O resultado foi usado para criar as espirais que aparecem nos posters – bom para colocar na parede e para observar os diferentes padrões presentes nas obras analisadas.

pontuações_ulyssesNicholas Rougeux / Between the Words

Em Ulysses, a predileção de James Joyce por parênteses fica aparente – já a famosa explosão verbal de Molly Bloom (com suas mais de 40 páginas e um único ponto) desaparece.

pontuações_mulherzinhasNicholas Rougeux / Between the Words

Em Mulherzinhas, clássico de Louisa May Alcott, são as vírgulas que saltam aos olhos.

pontuações_peter-pan-e-jane-austenNicholas Rougeux / Between the Words

Peter Pan e Orgulho e Preconceito também foram reduzidos ao seu formato mínimo.

Foi depois de ver as criações de Nicholas Rougeux que Adam J Calhoun resolveu descobrir como ficariam seus livros favoritos se as palavras fossem subtraídas. Ele colocou lado a lado Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, e Absalão, Absalão!, de William Faulkner, e a diferença nas pontuações usadas deixa claro o contraste entre as prosas dos dois autores.

pontuações_meridiano-absalãoMeridiano De Sangue (esq.) e Absalão, Absalão! (dir.) / Adam J Calhoun

Meridiano de Sangue tem frases curtas. Uma ou duas perguntas? Talvez, mas, em seguida, mais frases. E, no entanto, Absalão, Absalão! é selvagem; além disso, pode-se dizer, contém declarações, dentro de declarações, dentro de declarações: quem não ama isso?”, brinca Calhoun.

Aproveitando o ensejo, Adam fez também um levantamento do uso de cada sinal de pontuação nas duas obras e em Adeus às Armas, de Ernest Hemingway; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; Frankenstein, de Mary Shelley; Grandes Esperanças, de Charles Dickens; As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain; Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; e Ulysses, de James Joyce:

pontuações_comparativoAdam J Calhoun / reprodução

Enquanto Cormac McCarthy marca suas frases prioritariamente com pontos finais, Lewis Carroll e Faulkner dão pouquíssima bola para as pausas máximas. Hemingway não liga tanto para vírgulas e disputa com os colegas o posto de mais questionador – Joyce e Twain estão logo atrás. E, levando em consideração o que encontra ao seguir o Coelho Branco, não é surpresa descobrir que Alice – e a temida Rainha “Cortem-lhe a cabeça!” de Copas – são fãs de uma boa exclamação.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.