Em busca do protagonismo feminino

Escritoras têm menos espaço e personagens femininas são coadjuvantes nos livros brasileiros
Em busca do protagonismo femininoNatalie Collins / unsplash

Não é preciso ler nas entrelinhas para perceber: no Brasil, a escrita literária ainda é predominantemente masculina. Um mapeamento realizado pelo Centro de Estudos em Literatura Brasileira da UnB sob coordenação da professora Regina Dalcastagnè mostra que o romance brasileiro é escrito em sua maioria por homens (72,7% dos autores) e sobre homens – 62,1% das personagens são do sexo masculino que, em 71,1% das vezes, são também protagonistas.

De acordo com notícia do Ministério da Cultura, para chegar aos números foram analisados quase 700 romances brasileiros contemporâneos publicados pelas editoras de mais destaque no país ao longo de dois períodos. Entre os anos de 1965 e 1979 foi lançado um olhar sobre obras lançadas pela Civilização Brasileira e pela José Olympio; de 1990 a 2004 (período posteriormente estendido até 2014) foram analisadas as obras publicadas pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. Ao todo, 383 autores e autoras assinaram as obras analisadas – desses, mais da metade são homens brancos de classe média, dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo que atuam prioritariamente como jornalistas, professores universitários, roteiristas e tradutores. Entre 1965 e 1979, as escritoras representavam apenas 18% do total de autores publicados; atualmente, ainda não chegam a 30%, apesar de, no Brasil, as mulheres representarem 51,5% dos mais de 203,1 milhões de habitantes do país.

Quem está nas páginas

Mais que números, a falta de espaço para as mulheres na literatura tem também impacto na representação feminina nas páginas. Em romances assinados por homens no período de 1990 a 2004, as mulheres foram retratadas como jovens (42,3%), adultas (50%), belas (42,3%), atraentes (50%) e inteligentes (34%). Além disso, nessas histórias, 42,3% são apresentadas como menos intelectuais, atuam como donas de casa e dependem mais dos homens financeiramente. Já nos romances escritos por mulheres, a principal característica das personagens femininas é a inteligência (63%), elas são mais escolarizadas que seus cônjuges (22,6%), mais independentes e são também, em sua maioria, donas de casa.

A falta de pluralidade de vozes significa também pouca diversidade de histórias. “Entendo a literatura como uma forma de representação social. Ela deveria sim, idealmente, refletir a heterogeneidade de nossa população e, mais que isso, a heterogeneidade de nossas experiências. Afinal, qual a função de invisibilizar, mais uma vez, mulheres, negros, pobres, moradores das periferias, deficientes, idosos etc?”, questiona a pesquisadora.

Quem é imortal

Entre os atuais quarenta imortais da Academia Brasileira de Letras, apenas cinco são mulheres: Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Rosiska Darcy de Oliveira. Na história da ABL, fundada em 1897, apenas outras três escritoras já ocuparam uma cadeira na prestigiada instituição: Rachel de Queiroz (1910–2003), Dinah Silveira de Queiroz (1901-1982) e Zélia Gattai (1916-2008). A candidatura de escritoras à Academia costumava não ser permitida – até 1976, o Art. 17 do Regimento Interno restringia a eleição aos “brasileiros do sexo masculino”.

Jessica Soares

As páginas amareladas, a poeira da capa, o lugar escondido no armário em que esperava por ser desbravado – a história sempre teve início antes das palavras. Nunca pisei no solo de outro planeta. Mas, na falta de naves, aviões e ônibus de viagem, embarquei nas páginas dos livros, que nunca falharam em me levar para longe.