Alfonsina e o mar

Um encontro com a obra e a vida da escritora e poetisa argentina Alfonsina Storni
Alfonsina e o marAlfonsina aos 24 anos / Archivo General de la Nación Argentina

Por la blanda arena
que lame el mar
su pequeña huella
no vuelve más
un sendero solo
de pena y silencio llegó
hasta el agua profunda*

Casualmente, pouco antes de embarcar para terras hermanas, ouvi pela primeira vez o nome de Alfonsina Storni. Fiquei encantada, num primeiro momento, com a sua história trágica. Depois, com a sua figura de mulher forte, que desafia seu tempo. Por fim, mergulhei na delicadeza e força dos seus versos. Coincidência boa trombar com seu nome justamente quando começava a arrumar as malas para vir estudar Letras na Argentina por quatro meses. E, principalmente, nesse momento em que me torno uma feminazi assumida e feliz busco cada vez mais obras de autoria feminina.

Sabe dios qué angustia
te acompañó
qué dolores viejos
calló tu voz
para recostarte
arrullada en el canto
de las caracolas marinas*

Alfonsina Storni nasceu, na verdade, na Suíça, em 1892, mas viveu desde os quatro anos na Argentina. Teve uma infância pobre e de muito trabalho em San Juan e Rosário. Formou-se professora, seu ganha-pão durante a vida. Em 1911, aos vinte anos, se mudou para Buenos Aires, grávida de um homem casado. Enfrentou, desde então, a sociedade machista do início do século 20 como “mãe solteira”.

As posturas intelectuais de Alfonsina marcaram sua trajetória: assinou colunas em jornais que discutiam o lugar da mulher na sociedade; defendeu o direito ao voto e questionou estereótipos e as possibilidades oferecidas às mulheres. Entre seus potentes versos e ideias, conseguiu se inserir e ser reconhecida no mundo intelectual então essencialmente masculino.

Te vas alfonsina
con tu soledad
¿qué poemas nuevos
fuíste a buscar?*

Os seus posicionamentos ideológicos também se refletem em sua poesia. Em um primeiro momento, a maioria de seus poemas se encaixam nos chamados “poemas de amor”, formato predominante na “escrita feminina” nesses tempos em que a poesia –  como a literatura, de forma geral – era arte para homens e as mulheres eram relegadas a um subgênero. Mas, não se engane, apesar de utilizar esse formato tradicional, Alfonsina inova no conteúdos, extrapolando – e muito – a simples discussão do amor romântico. Já neste momento, já podemos entrever a veia autobiográfica e uma intimidade profunda e forte. Em uma segunda fase, a autora se mostra ainda mais introspectiva; seus versos, mais irônicos; e se pode perceber com ainda mais força a discussão da liberdade do seu corpo em uma cultura conservadora.

Passeando por sua obra, é possível encontrar temas como a sua maternidade (Yo tengo un hijo fruto del amor, de amor sin ley, / Que no pude ser como las otras, casta de buey / Con yugo al cuello; ¡libre se eleve mi cabeza! [do poema “La Loba”]), a hipócrita moral machista (Tú me quieres alba, / Me quieres de espumas, / Me quieres de nácar. / Que sea azucena / Sobre todas, casta [“Tú me quieres blanca”]); o direito à independência feminina (Estuve en tu jaula, hombre pequeñito, / Hombre pequeñito que jaula me das. Digo pequeñito porque no me entiendes, / Ni me entenderás (…) Hombre pequeñito, te amé media hora, / No me pidas más [“Hombre pequeñito”]); a histórica submissão destinada às mulheres (Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido / No fuera más que aquello que nunca pudo ser, / No fuera más que algo vedado y reprimido / De familia en familia, de mujer en mujer [“Bien pudiera ser”]), e o desejo sexual (Como a un muñeco destripé tu vientre/ y examiné sus ruedas engañosas / y muy envuelta en sus poleas de oro/ hallé una trampa que decía: sexo [“A Eros”]). Percebe-se, então, os claros intentos de chocar a tradicional família porteña que Alfonsina dá voz – uma voz real, que exige espaço e direitos – a um novo modelo de mulher.

Bájame la lámpara
un poco más
déjame que duerma
nodriza, en paz
y si llama él
no le digas nunca que estoy
di que me he ido*

Sua vida foi marcada por lutas e por amores. Uma de suas batalhas finais foi contra o câncer de mama. Mas não foi a doença que deu o golpe final. Alfonsina se suicidou em 1938. Como na sua  vida, morreu de forma poética. Se lançou ao Mar del Plata. Dizem que sofria de dores terríveis por conta do câncer e que os médicos lhe deram seis meses de vida apenas. Deixou uma carta para seu filho Alejandro e um poema: Voy a dormir.

una voz antigüa
de viento y de sal
te requiebra el alma
y la está llevando
y te vas hacia allá
como en sueños dormida,
alfonsina vestida de mar*

* Os trechos  que perpassam todo o texto são da música Alfonsina y el mar, do pianista Ariel Ramírez e do escritor Félix Luna, interpretada lindamente na voz de Mercedes Sosa:

Fontes: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes e Centro Virtual Cervantes

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.