Borges em três livros

Para se aventurar pelas linhas argentinas, boa pedida é mergulhar na obra de Jorge Luis Borges
Borges em três livrosreprodução

Quando juntamos as palavras “literatura” e “Argentina” em uma mesma frase em geral o resultado mais provável é Jorge Luis Borges. Considerado um dos maiores escritores da língua espanhola, Borges é o xodó dos argentinos e será um tema recorrente por aqui. Das três disciplinas que estou cursando na pequena e simpática Santa Fé, duas vão discutir a obra do escritor de alguma maneira. Borges, autor de prosa, poesia e ensaios, foi traduzido para diversos idiomas e suscita até hoje, 30 anos depois da sua morte, em 14 de junho de 1986, inúmeros estudos críticos e acadêmicos.

Ironicamente, durante alguns anos ele não foi devidamente valorizado dentro do cânone ditado pela Universidad de Buenos Aires (UBA), contou (em tom de mea-culpa) uma das minhas professoras. Apesar de ter nascido em solo argentino em 1899, Borges foi criado com a presença forte da avó, nascida na terra da Rainha, e com a biblioteca de livros em inglês do pai, primeiro idioma que aprendeu. Viveu –  e começou a escrever –  na Europa entre 1914 e 1920, na Suíça, Inglaterra e Espanha. Voltou à Argentina em 1921 e, a partir daí, se embrenhou na vida intelectual e literária de Buenos Aires.

Hoje em dia faz parte do imaginário e da identidade argentina. No prólogo de uma revista acadêmica santafesina que homenageia o escritor, a professora Adriana Crolla escreveu –  e eu transcrevo aqui em tradução livre: “seu nome se converteu em um adjetivo que atualmente nos define enquanto argentinos. Ser argentino é singularmente borgeano”.

Bom, nada melhor, então, para conhecer a fundo a Argentina do que mergulhar na fantástica, íntima e, ao mesmo tempo, plural e estrangeira literatura de Borges. Se você também quer se aventurar pelas linhas borgeanas, aqui vão três dicas de livros que representam bem a obra do escritor –  e que eu terei que desbravar ao longo do semestre:

1. Ficções (1944)

Composto de duas partes, “O jardim de veredas que se bifurcam”, publicado pela Editora Sur em 1941, e dez outras narrativas agrupadas em “Artifícios”, Ficções foi incluída entre os 100 melhores livros de todos os tempos, lista organizada pelo Clube do Livro da Noruega. Também está no top 100 melhores obras literárias escritas em espanhol do século XX, criado pelo jornal espanhol El Mundo. Ou seja, bafão. O livro traz alguns dos contos mais famosos do escritor, como “Funes, o memorioso”, “A biblioteca de Babel” e “Pierre Menard, autor do Quixote”.

2. O Aleph (1949)

Um dos livros mais conhecidos de Borges e considerado pela crítica como uma de suas obras mais representativas, O Aleph foi publicado em 1949 e depois reeditado pelo autor em 1974. Nessa obra, composta de 17 contos, o fantástico é o principal elemento. Os textos são permeados por fenômenos incomuns e contextos estranhos que giram em torno de temas caros à obra borgeana, como tempo, finitude e imortalidade. Se for para escolher um só livro de Borges, é este!

3. O Informe de Brodie (1970)

Diferente das duas outras emblemáticas obras citadas acima, El informe de Brodie é menos conhecido e faz parte da fase mais madura do escritor. Publicado em 1970, os 11 contos presentes no livro trazem uma linguagem mais direta –  mas não simples, como disse Borges no prólogo da obra, e não menos maravilhosa, como disse eu, aqui. Um bom motivo para ler esse livro? Borges já nos convence nesse mesmo prólogo: “Durante muitos anos, acreditei que eu poderia conseguir uma boa página mediante variações e novidades. Agora, alcançados os setenta, creio ter encontrado a minha voz”, diz o autor.

Thais Marinho

Ainda são poucos os livros na minha estante e muitos na lista para serem lidos, mas a paixão por eles já está há muito tempo instalada. Hoje, cá estou, quase ex-jornalista, estudante de Letras, atualmente em terras hermanas, desbravando o argentinês e as literaturas hispano-americanas.